Há coisas que ficam em casa muito depois de deixarem de servir para aquilo que serviam. CDs que já quase não rodam. DVDs que perderam a guerra contra o streaming. Livros que esperam na estante. Postais guardados em micas. Porta-chaves, canetas, pequenos objectos que um dia vieram parar-nos às mãos e, por alguma razão, ficaram.
Durante muito tempo, guardar era uma forma de ter. Tínhamos discos porque queríamos ouvir música. Tínhamos filmes porque queríamos vê-los quando nos apetecesse. Tínhamos livros porque havia qualquer coisa de bom em olhar para uma lombada e saber que aquela história estava ali, à espera. Hoje tenho Spotify, plataformas de streaming, ficheiros, listas, favoritos, bibliotecas digitais. Tenho acesso a quase tudo, mas acesso não é bem a mesma coisa que posse. É mais leve, sim. Mas também passa mais depressa.
A minha colecção de CDs continua por ali, a apanhar pó. Há colectâneas como 100% Dream e Dance Power, há Metallica, Rammstein, Guano Apes, HIM, Godsmack, Fonzie, t.A.T.u., Scorpions e mais uns quantos nomes que foram entrando ao longo dos anos. Uns vieram por fases, outros por descoberta, outros talvez por impulso. Hoje, se quiser ouvir qualquer uma dessas músicas, é mais fácil abrir o Spotify do que procurar o disco. Mas o CD continua a ter uma coisa que a aplicação não tem: lembra-me de uma versão minha que teve de escolher, comprar, guardar, arrumar.
Com os filmes acontece o mesmo. A minha filmografia física está ali, também mais quieta do que antes. Tenho 007 em colecção de jornal, Star Wars, Matrix, Braveheart, O Senhor dos Anéis, Pulp Fiction, Terminator, Avatar, V de Vingança e outros filmes que foram ocupando espaço em prateleiras. Alguns talvez hoje estejam disponíveis em plataformas. Outros entram e saem de catálogo como quem muda de montra. Mas a caixa física continua ali, com a capa, o disco, o peso mínimo de uma escolha antiga.
Também há livros. E os livros são outra coisa. Mesmo quando não os abrimos durante anos, continuam a fazer parte da casa de uma maneira diferente. Não são apenas conteúdo. Têm lombada, cheiro, volume, memória de compra, de oferta, de fase. Alguns foram lidos. Outros ficaram à espera. Outros talvez nunca cheguem a ser lidos como mereciam, mas continuam ali, como se guardassem uma promessa.
Depois há os objectos mais pequenos. Postais de filmes do tempo em que trabalhava no cinema, guardados em micas. Porta-chaves. Algumas canetas. Coisas que, vistas de fora, talvez pareçam só tralha. Mas a tralha também tem biografia. Às vezes não vale nada para ninguém, excepto para quem a guardou. E isso chega.
Nem tudo ficou. Também tive uma colecção de latas de refrigerantes. Durante algum tempo, aquilo fazia sentido: cores, marcas, desenhos diferentes, latas que pareciam especiais só por não serem iguais às outras. Depois começaram a estorvar. E há colecções que acabam assim, sem grande cerimónia. Um dia deixam de caber na vida e vão para o lixo. Não é bonito, mas é verdade. Nem tudo o que fez parte consegue ficar connosco para sempre.
Talvez seja isso que me interessa no coleccionismo. Não a ideia de ter coisas raras, valiosas ou perfeitas. Mas a maneira como certos objectos vão ficando presos a fases da vida. Uma cassete gravada por alguém. Um CD comprado numa altura qualquer. Um filme visto e revisto. Um postal que sobrou de um cinema. Um livro que ainda espera. Um porta-chaves que veio de não sei onde, mas ficou. São coisas pequenas, muitas delas sem utilidade nenhuma, mas às vezes são essas que melhor guardam o tempo.
Hoje está tudo mais fácil. A música vem por streaming. Os filmes aparecem num catálogo. Os livros cabem num tablet. As fotografias ficam na nuvem. Os calendários vivem no telemóvel. E eu gosto dessa facilidade, não vale a pena fingir o contrário. Mas também sinto que alguma coisa se perdeu no caminho. Antes, para ouvir, ver ou ler, havia um gesto. Abrir uma caixa. Tirar um disco. Escolher uma capa. Pegar num livro. Folhear qualquer coisa. Agora basta tocar no ecrã, e talvez por isso as coisas entrem e saiam de nós com menos atrito.
Ainda assim, não olho para estas colecções como museu. São mais restos de passagem. Pequenos sinais de que estive ali, naquela idade, naquela fase, naquele entusiasmo. Algumas continuam arrumadas com cuidado. Outras estão apenas encostadas, à espera de uma limpeza que nunca chega. Outras desapareceram porque a casa também precisa de espaço e a vida não pode guardar tudo.
Entre todas estas coisas, há uma colecção que talvez explique melhor este meu hábito de guardar: os calendários de bolso. Mas essa fica para outro texto. Porque há objectos pequenos que merecem silêncio próprio.
Por agora, fico com esta ideia: hoje tenho quase tudo num ecrã, mas há partes de mim que continuam guardadas em caixas de plástico, lombadas gastas, discos que já quase não rodam e micas onde o tempo não desapareceu completamente.
