Ahsoka, Ashoka e os caminhos de quem deixa de pertencer

Leitura de Star Wars: Ahsoka e o curioso eco entre Ahsoka Tano e Ashoka, o imperador indiano marcado pela guerra e pela consciência.

Andava a preparar umas notas sobre Star Wars: Ahsoka, de E. K. Johnston, quando tropecei numa daquelas descobertas que parecem pequenas, mas abrem uma porta inesperada. Ahsoka Tano, uma das personagens mais interessantes de Star Wars, tem um nome que ecoa Ashoka, imperador indiano do século III a.C., figura histórica associada ao Império Máuria, à guerra de Kalinga e a uma profunda viragem moral ligada ao budismo. Não sei até que ponto esta semelhança foi pensada ao milímetro, mas também não preciso que tudo seja confirmado por bastidores oficiais para achar o paralelo fascinante. Às vezes, a ficção ganha força precisamente quando nos faz tropeçar na História.

Li o livro Star Wars: Ahsoka e gostei sobretudo por ele apanhar a personagem num momento muito particular da sua vida. Não é a Ahsoka aprendiz, ainda ligada a Anakin e à Ordem Jedi, nem é ainda a figura mais madura que reencontramos depois em Star Wars Rebels. É uma Ahsoka em fuga, marcada pela Ordem 66, a tentar desaparecer num planeta agrícola, junto de uma comunidade simples, numa espécie de aldeia onde a vida parece pedir silêncio, trabalho e discrição. Gostei dessa parte mais pequena, mais humana, por estranho que seja usar esta palavra em Star Wars. Ahsoka não está ali a salvar a galáxia com grandes discursos. Está a tentar sobreviver, a esconder quem é, a perceber se ainda pode pertencer a algum lugar. E quando o Império chega e ameaça aquela comunidade, a história volta a fazer-lhe a pergunta que ela tenta evitar: até onde é possível ficar de fora quando há pessoas a precisar de ajuda? É por isso que o livro funciona. Não apenas por acrescentar informação à cronologia da personagem, mas porque mostra o intervalo entre a perda e a escolha. Ahsoka já não tem Ordem, já não tem mestre, já não tem templo, mas continua a ter uma bússola interior.

E é aqui que o paralelismo com Ashoka, o imperador indiano, começa a ganhar graça. Ashoka foi um governante poderoso, lembrado pela conquista de Kalinga e pela mudança que se seguiu. Segundo a tradição histórica, o sofrimento provocado por essa guerra levou-o a repensar a ideia de conquista pela violência e a aproximar-se do budismo, passando a associar o seu governo a uma ideia de dharma, tolerância e responsabilidade moral. Ahsoka Tano, claro, não é uma imperadora indiana nem a sua história é uma cópia dessa vida. Mas há um eco bonito entre as duas figuras: ambas existem depois de uma rutura. Ashoka depois da guerra. Ahsoka depois da queda da República, da destruição da Ordem Jedi e da traição de um mundo que dizia defender a paz enquanto caminhava para o abismo.

A frase que me vem sempre à cabeça com Ahsoka é esta: não Jedi, mas mais Jedi que muitos Jedi. Ela abandona a Ordem porque percebe as suas falhas, a sua rigidez, a sua cegueira institucional. Mas não abandona aquilo que havia de mais limpo na ideia Jedi: proteger, escutar, agir com compaixão, resistir ao medo, não transformar poder em domínio. Isso torna-a mais interessante do que uma simples guerreira luminosa. Ahsoka não precisa do título para carregar o sentido. E talvez seja aí que ela se aproxima, simbolicamente, de Ashoka. O imperador é lembrado menos pela força que teve e mais pela consciência que encontrou depois da força. Ahsoka também se torna maior não quando vence, mas quando escolhe continuar a fazer o bem sem precisar que uma instituição lhe diga quem ela é.

No fundo, esta descoberta fez-me gostar ainda mais da personagem. Eu fui ao livro à procura de Ahsoka Tano e acabei a encontrar Ashoka, o imperador. Fui atrás de uma história de Star Wars e tropecei numa memória da Índia antiga. E isso é uma das coisas boas da cultura pop quando ela funciona: uma personagem leva-nos a outra coisa, um nome abre uma janela, uma galáxia distante acaba por nos devolver à nossa própria História. Star Wars: Ahsoka pode ser lido como uma peça de ligação dentro da saga, mas também como uma história sobre alguém que perdeu o lugar no mundo e, mesmo assim, não perdeu o centro. Ahsoka já não é Jedi no papel. Talvez por isso mesmo consiga ser Jedi no essencial.

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