A primeira música dos Xutos & Pontapés que verdadeiramente ficou comigo foi Contentores. Há canções que chegam como apresentação de uma banda e outras que parecem abrir logo uma porta. Esta pertence ao segundo grupo. Não precisei de conhecer ainda toda a discografia para perceber que havia ali qualquer coisa que me falava de uma forma diferente.
Com o tempo vieram muitas outras músicas. Os Xutos foram-se tornando uma presença constante, daquelas bandas que encontramos nos discos, na rádio, nas festas e em momentos que acabam por ficar ligados à nossa própria vida. Fui também reunindo a coleção publicada com o jornal, construindo aos poucos uma discografia que ajudava a guardar esse percurso.
Mas uma banda muda de lugar dentro de nós quando a vemos ao vivo. Deixa de chegar apenas pelas colunas e passa a ocupar um espaço verdadeiro, com palco, luz, público e aquele som que se sente de outra maneira quando estamos lá.
Vi os Xutos num concerto de 25 de Abril, em Odemira. Já não me lembro do ano, e não vale a pena inventá-lo apenas para completar uma data. Ficou-me o que interessa: o lugar, o dia e a memória de ouvir uma das bandas mais marcantes da música portuguesa numa celebração que também diz muito sobre o país onde as suas canções nasceram.
Mais tarde, vivi outra noite ainda mais especial na Zambujeira do Mar. Durante a atribuição de um prémio das 7 Maravilhas, os Xutos e o Jorge Palma deram um concerto naquele largo, junto ao mar. O sol começava a desaparecer e a música entrava devagar pela noite, com o público muito próximo do palco e aquela sensação de que a vila inteira se tinha juntado ali.
Não era a distância de um grande recinto, onde os músicos parecem existir noutro mundo. Na Zambujeira, tudo estava perto. O palco, as pessoas, as ruas, o mar e os artistas misturavam-se no mesmo espaço. As fotografias que tirei mostram isso: o público quase encostado aos músicos, as luzes a acenderem-se enquanto o dia terminava e uma noite de verão a ganhar música.
Foi também nesse dia que aconteceu um daqueles pequenos momentos que acabam por sobreviver ao próprio concerto. Estavam comigo algumas amigas e uma delas era fã do Zé Pedro. Queria uma fotografia com ele, mas tinha vergonha de lhe pedir.
Pedi eu e ele aceitou com aquela simplicidade que tornava o momento ainda mais natural, e fui eu quem tirou a fotografia dos dois. Na altura, era apenas uma recordação feliz de alguém ao lado de um músico que admirava. Hoje, com a ausência do Zé Pedro, aquela imagem ganhou outro peso. Continua a guardar o sorriso da minha amiga, mas guarda também a presença de alguém que deixou uma marca profunda nos Xutos e em tanta gente que os ouviu.
Talvez seja por isso que gosto tanto de fotografar. Uma imagem não sabe, no momento em que é feita, aquilo que virá a significar anos depois. Limita-se a guardar um gesto, um rosto e um instante. Somos nós que, mais tarde, regressamos a ela com tudo o que entretanto aconteceu.
Quando penso nos Xutos & Pontapés, não penso apenas numa sucessão de álbuns ou nas canções que toda a gente conhece. Penso em Contentores, naquela primeira porta que se abriu. Penso na coleção que fui reunindo, no 25 de Abril em Odemira e naquela noite ao pôr do sol na Zambujeira do Mar.
E penso também numa amiga que não teve coragem para pedir uma fotografia, num músico que aceitou pousar ao lado dela e em mim, do outro lado da máquina, a carregar no botão sem imaginar o valor que aquela imagem viria a ter.
Há bandas que ficam nos discos. Outras acabam espalhadas pela nossa vida, ligadas a lugares, pessoas e momentos que já não conseguimos separar das músicas.
Os Xutos ficaram assim comigo: numa canção, em dois concertos e numa fotografia que ajudou alguém a guardar para sempre um encontro com o saudoso Zé Pedro.
