Soube da abertura do Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência, no Vimieiro, concelho de Santa Comba Dão, e achei que fazia sentido. A notícia trouxe-me curiosidade e uma esperança: que aquele seja um lugar onde possamos aprender alguma coisa, olhar para os documentos e sair com mais perguntas do que aquelas com que entrámos.
Ainda não visitei o espaço. Não sei, por isso, como se passa das intenções anunciadas para aquilo que o visitante encontra nas salas. Sei que a abertura aconteceu a 23 de outubro e que a primeira exposição é dedicada à censura. Parece-me um bom ponto de partida para falar de um tempo em que nem tudo o que se pensava podia chegar ao papel, à rádio ou a uma canção.
Gosto muito da liberdade. Gosto de poder escrever isto, de discordar de quem governa, de ler opiniões que me irritam e de fechar o jornal por vontade própria. Talvez seja por lhe dar tanto valor que não vejo problema em existir um espaço dedicado ao estudo da ditadura. Tenho vontade de perceber melhor como se vivia, como se governava e como foi possível manter aquele poder durante tantas décadas.
Também quero conhecer o que se fez de bem e de mal nesse tempo. A frase pode levantar sobrancelhas, mas parece-me uma vontade legítima de quem procura compreender a história. Houve decisões, obras e mudanças que merecem ser estudadas pelo que foram. Interessa saber a quem chegaram, quem beneficiou delas, quem ficou à espera e que alternativas existiam. Reconhecer o resultado de uma medida concreta não me obriga a aceitar o regime que a tomou.
Da mesma forma, uma estrada, uma escola ou umas contas apresentadas como certas não encerram a conversa. Há sempre mais qualquer coisa para perguntar. Quem podia estudar? Quem tinha de abandonar a terra para procurar uma vida melhor? O que acontecia a quem discordava? Como chegava a realidade aos jornais, depois de passar pelos olhos de quem tinha o poder de a cortar?
É aí que espero encontrar o cuidado deste centro. Nos documentos que permitem confrontar o discurso oficial com a vida das pessoas. Nas vozes de quem apoiou o regime e nas de quem lhe resistiu. No quotidiano de quem atravessou aqueles anos a trabalhar e a criar filhos, por vezes sem imaginar outra maneira de viver. E no lugar devido a quem foi perseguido, preso ou silenciado. Essas experiências fazem parte da história que ali se pretende contar.
Percebo o receio de que um espaço destes possa alimentar saudades da ditadura. A maneira como se escolhe uma fotografia, se escreve uma legenda ou se deixa uma ausência pode mudar muito aquilo que se conta. Por isso, os conteúdos merecem atenção e discussão. Quero poder entrar, observar, confrontar o que me dizem e formar a minha opinião. Para isso, preciso de informação séria e de contexto.
Há quem tenha boas memórias pessoais daqueles anos. Uma infância feliz, a casa dos pais, os vizinhos, uma mesa onde ainda cabiam pessoas que entretanto partiram. Compreendo essas saudades. A memória guarda os rostos de quem amámos, mesmo quando o país à volta tinha portas fechadas. Ouvir essas recordações também pode ajudar a perceber a época, desde que haja espaço para as memórias de quem viveu o medo.
Espero que este centro nos dê essa possibilidade de escutar e de aprender. Gostava de o visitar com tempo, ler o que estiver nas paredes e descobrir aquilo que ainda desconheço. Depois, sair para a rua e poder dizer livremente o que achei. Há uma parte da história que se compreende melhor quando damos valor a esse gesto tão simples.
Olhar para trás de olhos abertos
Um centro sobre o Estado Novo, a vontade de conhecer a história e a liberdade de olhar para o passado sem fechar os olhos.
