Não percebo nada de carros. Se me abrirem um capô à frente, consigo reconhecer muito pouco do que lá está. Não sei discutir motores, afinações, suspensões ou estratégias de corrida. Mas há uma coisa que sei: Days of Thunder é um dos filmes da minha vida. Posso vê-lo vezes sem conta, quase em loop, e continuar a sentir o mesmo arrepio quando os motores começam a rugir.
Talvez seja essa uma das maiores virtudes do filme. Nunca exigiu que percebêssemos de mecânica. Tal como Top Gun não precisava que conhecêssemos o funcionamento de um caça, Days of Thunder não nos pede uma lição de NASCAR antes de nos sentarmos no sofá. Pede apenas que entremos no carro, apertemos o cinto e aceitemos a velocidade.
Estreado em 1990, o filme voltou a reunir Tom Cruise, Tony Scott, Don Simpson e Jerry Bruckheimer, quatro anos depois de Top Gun. A comparação entre os dois era inevitável. Cole Trickle foi muitas vezes apresentado como uma espécie de Maverick sobre o asfalto, outro jovem talentoso, impulsivo e convencido de que a coragem consegue resolver tudo. Há alguma verdade nisso, mas reduzir Days of Thunder a «Top Gun com carros» é esquecer aquilo que o filme construiu por si próprio.
Cole chega à NASCAR com velocidade nas mãos e uma confiança quase irritante. Tim Daland acredita no seu talento e chama Harry Hogge para lhe construir um carro. A partir daí, começa uma relação que é muito mais importante do que qualquer explicação sobre motores. Cole sabe conduzir, mas ainda não sabe ouvir. Harry conhece cada ruído da máquina, mas conhece sobretudo os silêncios de quem está ao volante.
Robert Duvall dá a Harry uma calma que segura todo o filme. Enquanto Cole vive com o pé no acelerador, Harry observa, espera e percebe. Não tenta apagar-lhe o fogo. Ensina-o a não deixar que esse fogo o consuma. A cena em que constrói o carro no celeiro continua a ter qualquer coisa de ritual. A máquina nasce devagar, peça a peça, antes de ser lançada para o ruído e para a luz das pistas.
Depois surge Rowdy Burns, interpretado por Michael Rooker. A rivalidade entre os dois dá ao filme a força bruta de que ele precisa, mas é o acidente que muda verdadeiramente a história. Até ali, Cole acreditava que o medo pertencia aos outros. Quando regressa à pista e percebe que o corpo pode estar dentro do carro enquanto a cabeça continua presa ao acidente, deixa de ser apenas o jovem arrogante que quer ganhar. Torna-se alguém que precisa de reaprender aquilo que julgava dominar.
É também nesse espaço que entra Claire Lewicki, a médica interpretada por Nicole Kidman. O romance pode seguir alguns caminhos esperados do cinema da época, mas Claire não está ali apenas para admirar o piloto. É ela quem o obriga a olhar para a fragilidade que ele tenta esconder. Cole sabe acelerar. O difícil é aceitar que também pode ter medo.
Tony Scott filmou tudo isto com a energia que o distinguia. O calor sobre o asfalto, os carros cobertos de cor, os rostos fechados dentro dos capacetes, as boxes transformadas num caos organizado e a pista a desaparecer à frente dos pilotos. A câmara não se limita a mostrar a corrida. Mete-nos dentro dela. Depois chega a música de Hans Zimmer, que não acompanha apenas as imagens. Empurra-as.
É por isso que não preciso de perceber de carros. O filme faz-me compreender a corrida através do som, da imagem e das pessoas. Percebo quando Cole está a conduzir acima do que consegue controlar. Percebo quando Harry deixou de confiar apenas no carro e passou a confiar no homem. Percebo o peso de Daytona mesmo sem conhecer todas as regras da prova.
E, por mais vezes que reveja o filme, a última corrida continua a funcionar. Sei o que vai acontecer. Conheço os olhares, os problemas na caixa de velocidades, a luta para regressar à pista e a forma como Cole encontra a passagem. Mesmo assim, durante alguns minutos, volto a acreditar que tudo pode correr mal. Há filmes que dependem da surpresa. Outros vivem da forma como nos fazem sentir, mesmo depois de já sabermos tudo.
Days of Thunder pertence a esse segundo grupo. Tal como Top Gun, ficou ligado a uma parte da minha vida que não desapareceu quando chegaram os créditos. São filmes aos quais regresso porque conheço aquele mundo, aquelas vozes e aquela música. Não os revejo apenas por nostalgia. Revejo-os porque continuam vivos dentro de mim.
Durante muitos anos, a história de Cole Trickle pareceu terminada. Depois, o trovão voltou a ouvir-se.
Tom Cruise confirmou que regressará ao papel numa continuação com estreia prevista para junho de 2028. Anne Hathaway será coprotagonista e interpretará a proprietária e engenheira de uma equipa. Jerry Bruckheimer volta à produção, agora ao lado de Cruise e Tommy Harper. Jonathan Levine ficará responsável pela realização e Will Staples escreveu o argumento. O filme será pensado para IMAX, o que deixa antever que a velocidade e a proximidade das corridas voltarão a ser parte essencial da experiência.
Ainda não conhecemos a história. Não sabemos se Cole continua a competir, se regressará para uma última corrida ou se encontrará no caminho alguém que o obrigue a ocupar o lugar que Harry Hogge teve na sua vida. Também não sabemos como entrará a personagem de Anne Hathaway ou quem mais regressará do primeiro filme. Neste momento, há mais silêncio do que respostas, e talvez seja melhor assim.
Sabe-se, pelo menos, que o argumento está a procurar conhecer a NASCAR atual. Will Staples visitou pistas e oficinas e falou com pilotos e equipas. Tom Cruise também deixou claro que pretende mostrar não apenas a velocidade, mas a comunidade, o trabalho coletivo e a cultura que existem à volta das corridas. É um pequeno sinal, mas é o sinal certo. O primeiro filme nunca foi apenas sobre um homem dentro de um carro. Foi sobre todas as pessoas necessárias para que ele conseguisse chegar à meta.
Não quero que esta continuação copie Top Gun: Maverick. Quero que aprenda com ele. Maverick resultou porque respeitou o tempo que passou, deixou as personagens envelhecer e percebeu que regressar não significa fingir que nada mudou. Cole Trickle já não pode ser o mesmo homem de 1990. A NASCAR mudou, o cinema mudou e nós também mudámos.
Se encontrarem uma história capaz de aceitar tudo isso, então o regresso pode ser muito mais do que uma corrida construída à volta da nostalgia. Pode ser o reencontro com uma personagem que ficou parada numa curva da nossa memória, ainda com o motor ligado.
Quando chegar 2028, não vou querer saber quantos cavalos tem o carro, que motor está debaixo do capô ou qual é a melhor estratégia para vencer em Daytona. Quando as luzes da sala se apagarem e aquele som começar, só vou querer voltar a entrar.
Alguns filmes terminam quando aparecem os créditos. Outros continuam a ecoar durante uma vida inteira. Days of Thunder nunca ficou verdadeiramente em silêncio.
