A culpa é sempre do outro

Quando tudo corre mal, a culpa parece morar sempre no outro. Talvez a responsabilidade comece no dia em que alguém disser: fui eu.

Há uma frase que raramente é dita, mas que parece viver nos corredores de muitos governos, empresas e instituições: a culpa é sempre do outro.

Quando alguma coisa corre bem, aparecem rapidamente os responsáveis. Há fotografias, discursos, comunicados e nomes associados ao sucesso. Todos participaram, todos contribuíram, todos estavam presentes desde o primeiro momento. O resultado é apresentado como prova de competência, visão e liderança.

Quando alguma coisa corre mal, o cenário muda.

De repente, ninguém sabia. Ninguém foi informado. Ninguém tinha competência direta sobre o assunto. A decisão veio de outro departamento, o problema já existia antes, as indicações recebidas estavam erradas ou as circunstâncias tornaram impossível fazer melhor. A responsabilidade começa a passar de mão em mão até desaparecer numa gaveta onde já ninguém consegue encontrá-la.

A política é talvez o palco onde este comportamento se torna mais visível.

Basta mudar um governo para que os problemas passem imediatamente a ser uma herança. Quem chega culpa quem saiu. Quem saiu acusa quem chegou de incompetência. A oposição exige explicações, demissões e transparência. Mais tarde, quando chega ao poder, descobre subitamente a complexidade dos processos, a necessidade de aguardar investigações e a injustiça dos julgamentos precipitados.

Mudam as cores, os símbolos e os lugares no Parlamento. O discurso, esse, parece conservar-se.

Quando estão de um lado, exigem aquilo que deixam de praticar quando passam para o outro. Pedem respostas rápidas, mas oferecem esclarecimentos vagos. Condenam o silêncio, mas escolhem cuidadosamente aquilo sobre o qual não querem falar. Apontam falhas pessoais nos adversários e transformam as suas próprias falhas em problemas técnicos, administrativos ou herdados.

Isto não significa que todos sejam iguais. As pessoas não são iguais, os casos não têm todos a mesma gravidade e as responsabilidades devem ser avaliadas com justiça. Colocar tudo no mesmo saco é outra forma de evitar pensar.

Mas existe um padrão que atravessa partidos, governos e épocas: a responsabilidade é sempre mais fácil de reconhecer quando pertence aos outros.

Cada polémica transforma-se num jogo de acusações. Em vez de explicar o que aconteceu, procura-se descobrir quem pode ser responsabilizado antes que o dedo aponte na direção errada. Em vez de corrigir primeiro e discutir depois, começa-se pela discussão. Os partidos falam uns dos outros, os comentadores repetem as declarações e os cidadãos assistem a dias de ruído, enquanto o problema que iniciou tudo continua por resolver.

A escola falha, mas a culpa pertence à plataforma. A plataforma falha, mas a responsabilidade é do fornecedor. O fornecedor cumpriu o contrato, mas recebeu dados incorretos. O ministério aguardava informações. O ministro não conhecia todos os detalhes. O governo herdou o sistema anterior.

No final, aconteceu alguma coisa grave, afetou pessoas reais, mas ninguém parece ter estado verdadeiramente ao comando.

O mesmo acontece fora da política.

Numa empresa, a direção culpa o departamento. O departamento culpa a equipa. A equipa culpa os prazos. Os prazos foram definidos por alguém que já não trabalha ali. Numa associação, a direção anterior deixou contas por esclarecer, a atual ainda não teve tempo de as analisar e a próxima acabará por receber o problema como parte da mobília.

Numa escola, a direção aponta para o ministério, o ministério para os serviços, os serviços para o sistema informático e o sistema informático, convenientemente, não pode responder.

Nas autarquias, federações, clubes, hospitais e grandes organizações, o mecanismo repete-se. Quanto maior é a estrutura, mais corredores existem para a responsabilidade percorrer até se perder.

Talvez seja por isso que tantas instituições gostam de falar em responsabilidade coletiva. A expressão parece digna e solidária, mas pode tornar-se muito cómoda. Quando todos são responsáveis, muitas vezes ninguém responde verdadeiramente.

Não é preciso que exista má-fé. Por vezes, há apenas medo. Medo de admitir um erro, de perder um cargo, de fragilizar uma imagem ou de entregar argumentos aos adversários. Vivemos num tempo em que uma falha confessada pode ser repetida até ao infinito, retirada do contexto e usada como prova de incapacidade absoluta.

Por isso, aprendemos a defender-nos antes de compreender o que aconteceu.

Talvez também nós tenhamos parte nesta cultura. Exigimos perfeição a quem ocupa cargos públicos e, depois, admiramo-nos quando essas pessoas têm medo de admitir que falharam. Transformamos qualquer reconhecimento de erro numa sentença definitiva e deixamos pouco espaço para a correção honesta.

Mas compreender esse medo não significa aceitar a fuga.

Quem assume um cargo de responsabilidade deve saber que responder pelos erros faz parte da função. Não apenas pelos erros que cometeu diretamente, mas também por aquilo que aconteceu sob a sua direção e que deveria ter sido previsto, acompanhado ou corrigido.

Responsabilidade não significa culpa criminal. Não significa que uma pessoa tenha de se demitir sempre que uma folha se perde ou um computador deixa de funcionar. Significa aparecer, explicar com clareza, reconhecer o que falhou e apresentar uma solução.

Significa dizer: isto aconteceu enquanto estávamos responsáveis, não conseguimos evitá-lo e vamos corrigir.

Parece simples. Na prática, ouvimos quase sempre outra coisa.

O problema vinha de trás. A informação não chegou a tempo. Houve uma falha de comunicação. As declarações foram mal interpretadas. A oposição está a aproveitar politicamente o caso. A comunicação social criou uma narrativa. As redes sociais retiraram tudo do contexto.

Pode existir alguma verdade em cada uma destas explicações. Contudo, quando todas surgem antes de um simples reconhecimento, deixam de esclarecer e passam a esconder.

A confiança nas instituições não desaparece apenas por causa dos erros. As pessoas sabem que governos, empresas e organizações são feitos por seres falíveis. Sistemas avariam, decisões revelam-se erradas e situações inesperadas acontecem.

A confiança perde-se quando sentimos que ninguém nos fala com verdade.

Perde-se quando uma pergunta simples recebe uma resposta preparada para não dizer nada. Quando o pedido de desculpas vem acompanhado de tantas justificações que deixa de parecer um pedido de desculpas. Quando alguém diz assumir todas as responsabilidades, mas nada muda, ninguém responde e o problema continua.

Há uma estranha ideia de força associada à incapacidade de reconhecer uma falha. Como se um líder fosse mais respeitado por nunca admitir dúvidas, erros ou desconhecimento. Mas essa aparência de firmeza acaba quase sempre por revelar fragilidade.

É preciso mais coragem para dizer “falhei” do que para apontar para quem estava antes.

Uma instituição adulta não é aquela que nunca se engana. É aquela que consegue olhar para o erro sem procurar imediatamente uma saída lateral. Investiga, identifica responsabilidades, protege quem foi prejudicado e altera os procedimentos necessários para que não volte a acontecer.

Não faz do reconhecimento uma cerimónia vazia. Corrige.

O problema é que corrigir raramente produz o mesmo espetáculo que acusar. Resolver exige trabalho, tempo e decisões pouco fotogénicas. Acusar cabe numa frase, numa manchete ou num pequeno vídeo partilhado milhares de vezes.

Talvez por isso a política tenha aprendido a viver de dedos apontados. Enquanto todos olham para o culpado escolhido, poucos perguntam quem está a tratar da ferida.

Este texto podia falar apenas de governos, mas seria demasiado fácil deixá-lo preso ao Parlamento. A incapacidade de assumir responsabilidades atravessa quase todas as estruturas onde existe poder, hierarquia ou reputação a proteger.

Serve para partidos e empresas. Para ministérios e associações. Para autarquias e clubes. Serve para qualquer instituição que se reconheça nestas palavras e sinta vontade de dizer que o problema é sobre outra pessoa.

Talvez seja precisamente essa vontade que a denuncie.

Não precisamos de governantes, dirigentes ou responsáveis perfeitos. Precisamos de pessoas capazes de permanecer no lugar quando alguma coisa corre mal. Pessoas que não usem os erros dos outros como desculpa para os seus e que não confundam defender uma instituição com esconder aquilo que nela precisa de ser corrigido.

Assumir a responsabilidade não apaga o erro. Mas impede que ele continue a crescer no escuro.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir ao mesmo espetáculo. Uns acusam, outros defendem-se, todos prometem esclarecimentos e os problemas ficam sentados à espera, silenciosos, no mesmo lugar onde sempre estiveram.

Porque a culpa, essa, nunca mora aqui.

Mora no gabinete ao lado, no governo anterior, na equipa que já saiu, no sistema que falhou ou numa pessoa que não está presente para responder.

É sempre do outro.

Mas, antes de terminar, também tenho de me colocar diante deste espelho. Eu falho. Também procuro desculpas, também encontro mais depressa os erros dos outros do que os meus e nem sempre assumo aquilo que devia assumir.

Por isso, peço desculpa pelas minhas falhas.

Não escrevo estas palavras de um lugar acima de ninguém. Escrevo-as do mesmo chão onde todos tropeçamos. A diferença talvez comece apenas quando deixamos de apontar o dedo e encontramos coragem para dizer:

Desta vez, fui eu.

Talvez a responsabilidade comece aí, no instante em que a culpa deixa de ser sempre do outro.

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