O Senhor dos Anéis, o mundo que se tornou precioso

Vi a trilogia no cinema e voltei à Terra Média nas versões longas em DVD. Há mundos que acabam nos créditos; este tornou-se precioso.

É difícil falar de fantasia moderna sem chegar, mais cedo ou mais tarde, à Terra Média. Tolkien não inventou sozinho todos os elementos que encontramos naquele mundo, mas reuniu-os, deu-lhes uma história, línguas, povos e lugares que parecem existir muito para além das páginas.

Muitos dos mundos de fantasia que vieram depois passaram por caminhos que Tolkien ajudou a abrir. Elfos, anões, feiticeiros, criaturas sombrias, grandes viagens e batalhas entre o bem e o mal já existiam no imaginário, mas O Senhor dos Anéis deu-lhes uma dimensão difícil de ignorar.

Transportar tudo isso para o cinema parecia uma tarefa quase impossível. A trilogia realizada por Peter Jackson conseguiu fazê-lo sem reduzir a Terra Média a um simples cenário. Os lugares tinham peso, as personagens pareciam carregar histórias anteriores àquelas que estávamos a acompanhar e cada passo da viagem dava a sensação de nos levar mais fundo naquele mundo.

Tive a oportunidade de ver os filmes no cinema. Foi ali que a dimensão da Terra Média se revelou verdadeiramente. As paisagens, as batalhas, os exércitos e as criaturas ganharam uma escala que o pequeno ecrã dificilmente conseguiria repetir. Não era apenas assistir a uma aventura. Era entrar nela durante algumas horas.

A Irmandade do Anel abriu a porta. Começámos no conforto do Shire, acompanhámos a formação da Irmandade e percebemos, pouco a pouco, o peso da missão entregue a Frodo. A viagem foi escurecendo à medida que o grupo se afastava de casa e se aproximava de perigos que já não podiam ser resolvidos apenas com coragem.

As Duas Torres expandiu o conflito e trouxe Gollum para o centro da viagem. Foi uma personagem que me ficou imediatamente na memória. Não era apenas uma criatura estranha obcecada pelo Anel. Havia nele uma divisão permanente entre aquilo que tinha sido e aquilo em que se transformara.

Gollum podia ser ameaçador, trágico e até divertido dentro da mesma cena. A forma como discutia consigo próprio mostrava que o Anel não destruía apenas o corpo. Entrava na vontade, ocupava o pensamento e transformava tudo o resto em algo secundário.

E depois havia aquela voz, aquela maneira de se agarrar ao Anel mesmo quando já não o tinha nas mãos:

“Meu precioso.”

Duas palavras foram suficientes para transformar Gollum numa das personagens mais reconhecíveis de toda a trilogia. Também resumiam o verdadeiro poder do Anel. Não era apenas um objeto mágico procurado por diferentes povos. Era uma obsessão capaz de consumir quem se aproximava demasiado.

O Regresso do Rei levou a viagem até ao confronto final. A guerra ganhou uma dimensão ainda maior, mas a história nunca perdeu de vista os passos de Frodo e Sam. No meio dos exércitos, das criaturas e das muralhas, o destino da Terra Média continuava dependente de duas pequenas figuras que avançavam quase sem forças.

Os três filmes são brutais e a experiência no cinema deu-lhes a escala que mereciam. No entanto, a minha relação com a trilogia não terminou quando saí da sala.

Tenho os DVDs com as versões longas. Regressar aos filmes através dessas edições foi descobrir que ainda existiam outros momentos, conversas e ligações dentro de uma história que já parecia gigantesca. As versões longas não servem apenas para acrescentar minutos. Dão mais espaço às personagens e permitem que a viagem respire.

No cinema, vivi a grandiosidade. Em casa, através dos DVDs, pude permanecer mais tempo na Terra Média, voltar atrás e rever os pormenores com outra atenção. São duas experiências diferentes, mas completam-se.

A trilogia mostrou que uma adaptação podia respeitar a dimensão de um mundo literário sem perder a força do cinema. Mostrou também que a fantasia não precisava de ser pequena, ligeira ou limitada. Podia ocupar três filmes, atravessar gerações e continuar a chamar-nos de volta muitos anos depois.

Talvez seja esse o verdadeiro poder da Terra Média. Podemos conhecer o caminho, saber quem sobreviverá e antecipar cada batalha. Ainda assim, quando a música começa e as primeiras paisagens aparecem, alguma coisa nos prende novamente àquele mundo.

Como diria Gollum, tornou-se precioso.

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