Durante séculos, dominar um território significava atravessar-lhe as fronteiras. Chegavam navios, exércitos, administradores e bandeiras. A presença do poder era visível e quase sempre violenta. Sabia-se quem ocupava, quem obedecia e onde começava a resistência.
Hoje, uma potência pode influenciar profundamente outro país sem colocar um único soldado nas suas ruas.
Pode financiar uma infraestrutura essencial, controlar parte de um porto, fornecer os sistemas digitais usados pela administração pública, comprar empresas estratégicas, dominar o espaço onde circulam as notícias ou fazer chegar milhões de mensagens diferentes a milhões de pessoas. Não precisa de conquistar o território se conseguir entrar nas decisões tomadas dentro dele.
O poder contemporâneo tornou-se menos visível, mas não menos real.
Um porto parece apenas um lugar onde chegam e partem mercadorias. No entanto, é também uma porta por onde circulam alimentos, energia, matérias-primas, medicamentos, equipamentos militares e grande parte da produção de um continente. Quem conhece os seus sistemas, participa na sua gestão ou controla infraestruturas essenciais não possui apenas um investimento comercial. Possui informação, acesso e uma posição estratégica.
A União Europeia continuou aberta ao investimento estrangeiro porque essa abertura trouxe capital, emprego, conhecimento e ligação aos mercados mundiais. Fechar os portos, empresas e infraestruturas a tudo o que vem de fora seria economicamente desastroso e politicamente contrário àquilo que a Europa afirma defender.
O problema não está na origem estrangeira de um investimento. Está naquilo que esse investimento permite controlar.
Uma fábrica de calçado, um restaurante ou uma cadeia de lojas não possuem o mesmo peso estratégico que uma rede eléctrica, um porto, uma empresa de telecomunicações ou um sistema responsável por guardar dados públicos. Tratar todos os investimentos da mesma forma seria tão ingénuo como considerar que todas as portas de uma casa protegem divisões com o mesmo valor.
Em março de 2026, a Comissão Europeia apresentou uma estratégia para os portos que procura conciliar abertura económica, competitividade e segurança. Entre as medidas previstas encontra-se a criação de critérios para avaliar a propriedade e o controlo estrangeiros em portos considerados estratégicos ou de utilização simultaneamente civil e militar. A Europa não pretende fechar essas infraestruturas ao capital exterior, mas começa a reconhecer que um porto não pode ser observado apenas através do preço pago pela concessão.
A mesma mudança está a acontecer no investimento estrangeiro em geral. Em junho de 2026, a União adoptou um novo quadro que obriga todos os Estados-membros a possuir mecanismos mínimos de análise dos investimentos exteriores em sectores sensíveis. A intenção é identificar riscos para a segurança e a ordem pública antes de uma aquisição se tornar impossível de desfazer.
Este cuidado não deve transformar-se numa suspeita automática contra quem investe. A Europa precisa de capital estrangeiro e continuará a recebê-lo. Precisa é de distinguir entre investimento e dependência, entre participação económica e capacidade de pressão.
Uma empresa pode comprar parte de uma infraestrutura porque acredita no seu valor comercial. Um Estado pode apoiar essa mesma aquisição porque vê nela uma forma de garantir influência, informação ou poder de negociação. Por fora, os dois movimentos parecem iguais. O dinheiro chega, o contrato é assinado e são criados empregos. A diferença só se revela quando surge uma crise e se descobre que os interesses da empresa e os interesses do país que a sustenta nunca estiveram completamente separados.
É por isso que o poder económico não se mede apenas pela quantidade de dinheiro investido. Mede-se também pelo momento em que esse dinheiro pode ser retirado, condicionado ou utilizado como ameaça.
A influência também entra através das empresas que concorrem no mercado europeu com o apoio financeiro de outros Estados. Uma empresa subsidiada pode apresentar preços que os concorrentes europeus não conseguem acompanhar, adquirir posições importantes e eliminar alternativas antes de aumentar a sua influência. O consumidor beneficia no início, porque paga menos. A vulnerabilidade aparece mais tarde, quando já quase não existem outros fornecedores.
A União criou o Regulamento das Subvenções Estrangeiras precisamente para tentar garantir que empresas apoiadas por governos exteriores não utilizam essa vantagem para distorcer aquisições e contratos públicos dentro do mercado europeu. O objectivo não é impedir a concorrência estrangeira, mas exigir que ela aconteça em condições que não tornem a abertura europeia numa fraqueza.
É uma fronteira difícil de traçar. Todos os grandes blocos económicos apoiam sectores considerados estratégicos, incluindo a própria União Europeia e os seus Estados-membros. A Europa não pode criticar qualquer apoio público vindo do exterior enquanto financia as suas próprias indústrias, investigação e transição energética.
A questão volta a ser a capacidade de escolha. Um apoio que cria concorrência pode beneficiar o mercado. Um apoio destinado a eliminar toda a concorrência acaba por diminuir essa escolha.
Mas o poder que não precisa de fronteiras já não entra apenas através do dinheiro, das empresas ou das infraestruturas. Entra também pelo ecrã que levamos no bolso.
Durante muito tempo, a propaganda exigia jornais, estações de rádio, canais de televisão e uma estrutura visível de produção. Hoje, uma operação de influência pode criar milhares de contas, copiar conteúdos, modificar imagens, explorar discussões existentes e fazer parecer espontâneo aquilo que foi cuidadosamente coordenado.
A mensagem não precisa de convencer toda a gente da mesma coisa. Pode dizer a cada grupo aquilo que mais o inquieta.
A uns apresenta a imigração como uma invasão. A outros garante que todas as preocupações com a integração são racismo. A uns diz que a Europa está submetida aos Estados Unidos. A outros afirma que qualquer autonomia europeia representa uma traição à aliança atlântica. A uns oferece a certeza de que as instituições escondem tudo. A outros ensina que toda a dúvida é perigosa.
O objectivo nem sempre é fazer acreditar numa mentira concreta. Pode ser suficiente tornar impossível acreditar em qualquer coisa.
Quando todas as versões parecem igualmente manipuladas, a verdade perde valor e a confiança desaparece. As pessoas deixam de procurar aquilo que aconteceu e passam a escolher a narrativa que melhor combina com o grupo a que pertencem. A sociedade continua a votar, discutir e publicar, mas fá-lo dentro de um nevoeiro onde já ninguém reconhece um chão comum.
O Serviço Europeu para a Acção Externa continua a documentar redes de manipulação informativa que utilizam meios de comunicação, contas falsas, organizações intermediárias e plataformas digitais para ampliar divisões existentes. O seu relatório de março de 2026 descreve estas actividades como estruturas organizadas, não como simples opiniões isoladas que se tornaram populares por acaso.
A Europa respondeu através de regras para as grandes plataformas, mecanismos de cooperação e do Escudo Europeu para a Democracia. Foi também criado um Centro Europeu para a Resiliência Democrática, destinado a melhorar a capacidade conjunta para detectar e responder a desinformação e interferência estrangeira.
Estas respostas são necessárias, mas trazem consigo um risco que não deve ser ignorado. Ao combater a manipulação, uma democracia pode sentir a tentação de decidir quais as opiniões permitidas. Quando isso acontece, a defesa da liberdade começa a parecer-se com aquilo de que pretendia protegê-la.
Nem toda a informação falsa vem do estrangeiro. Nem toda a crítica às instituições é uma operação coordenada. Nem toda a pessoa que partilha uma mentira sabe que o está a fazer. A desinformação pode nascer de interesses políticos nacionais, de empresas, de influenciadores à procura de atenção ou de cidadãos que acreditam sinceramente numa conclusão errada.
O Estado não deve transformar-se num ministério da verdade.
A melhor defesa não está apenas em remover conteúdos. Está em tornar as sociedades menos fáceis de manipular. Isso exige educação, jornalismo independente, transparência sobre quem paga uma mensagem política, acesso a fontes credíveis e cidadãos capazes de distinguir uma dúvida legítima de uma campanha construída para semear confusão.
Exige também plataformas que assumam responsabilidade pelo modo como os seus sistemas amplificam conteúdos.
As redes sociais não são simples paredes onde as pessoas colocam mensagens. Os algoritmos escolhem aquilo que vemos, repetem temas, aproximam conteúdos semelhantes e descobrem rapidamente o que nos mantém mais tempo diante do ecrã. Frequentemente, aquilo que provoca medo, indignação ou conflito recebe mais atenção do que aquilo que explica.
Essa escolha não é feita por um editor que possamos questionar. É feita por sistemas opacos, criados por empresas privadas, com objectivos comerciais e alcance suficiente para alterar o ambiente político de países inteiros.
A influência deixa então de depender apenas da mensagem. Depende da arquitectura que decide quem a recebe.
Uma potência estrangeira pode produzir propaganda, mas precisa de plataformas capazes de a fazer circular. Um político nacional pode espalhar uma falsidade, mas beneficia do mesmo sistema. Um grupo extremista pode parecer muito maior do que é se conseguir ocupar constantemente o ecrã das pessoas.
A ameaça exterior encontra terreno fértil nas fragilidades interiores.
Nenhum país consegue manipular uma sociedade completamente unida, informada e confiante nas suas instituições. As operações de influência procuram fendas que já existem: desigualdade, abandono territorial, medo da imigração, desconfiança nos governos, ressentimento económico e sensação de que ninguém escuta.
Combater apenas as contas falsas sem enfrentar essas fendas é como secar o chão sem reparar o telhado.
A comunicação social ocupa outro lugar sensível nesta geografia. Saber quem possui um jornal, uma estação de televisão ou uma plataforma informativa é essencial para compreender os interesses que podem existir por trás das escolhas editoriais. Isso não significa que todo o proprietário interfira nas notícias, mas a opacidade impede o leitor de avaliar essa possibilidade.
O Regulamento Europeu da Liberdade dos Meios de Comunicação, aplicável desde agosto de 2025, procura proteger a independência editorial, reforçar a transparência da propriedade dos meios e limitar interferências políticas ou económicas. Estas regras não eliminam a concentração do poder mediático, mas reconhecem que a liberdade de imprensa também depende de sabermos quem possui a imprensa.
A propriedade estrangeira não é, por si mesma, mais perigosa do que a propriedade nacional. Um empresário europeu pode usar jornais para proteger os próprios interesses com a mesma facilidade que um investidor exterior. Em vários países, os riscos para o pluralismo surgem precisamente de grupos económicos internos próximos do poder político.
O passaporte do proprietário não garante a independência de uma redacção.
O que importa é a transparência, a diversidade e a existência de regras que protejam jornalistas de pressões, despedimentos arbitrários, espionagem e processos judiciais destinados apenas a silenciá-los.
A influência contemporânea também se exerce através da cultura e do prestígio. Estados e grandes fundos investem em clubes, competições, universidades, museus, cinema, turismo e grandes acontecimentos. Estes investimentos podem trazer dinheiro, infraestruturas e oportunidades que de outra forma não existiriam.
Também podem construir uma imagem.
Um país associado a um clube admirado, a um grande evento ou a uma instituição cultural começa a ser visto através dessas ligações. A memória de violações de direitos, conflitos ou repressão pode ser empurrada para segundo plano pela força emocional do desporto e do entretenimento.
Nada disto significa que cada patrocínio esconda uma conspiração. O prestígio sempre fez parte das relações internacionais. Países europeus também projectaram língua, cultura e valores através de universidades, institutos culturais, cinema e desporto.
A diferença está na transparência. O público deve saber quem paga, porquê e que compromissos acompanham o dinheiro.
Uma sociedade aberta não se protege proibindo todas as influências. Isso seria impossível e indesejável. A cultura cresce precisamente porque atravessa fronteiras, recebe ideias e mistura experiências. A Europa não precisa de fechar-se numa redoma para conservar autonomia.
Precisa de deixar de confundir abertura com ausência de vigilância.
Receber investimento não obriga a entregar controlo. Usar plataformas globais não obriga a aceitar que funcionem sem regras. Permitir opiniões hostis à União não obriga a ignorar operações coordenadas por Estados. Acolher cultura e capital vindos do exterior não exige que se apaguem os interesses existentes por trás deles.
Também aqui a melhor defesa é criar alternativas próprias.
A Europa precisa de portos competitivos que não dependam de um único investidor, meios de comunicação sustentáveis que não fiquem à mercê de oligarcas, plataformas digitais capazes de competir com as grandes redes, investigação própria e instituições suficientemente transparentes para merecerem confiança.
Quando não existem alternativas, qualquer influência exterior encontra a porta aberta.
Ainda assim, há um cuidado essencial: proteger a Europa não pode tornar-se uma desculpa para proteger tudo o que é europeu da concorrência ou da crítica. Uma empresa europeia pode abusar do poder, um governo europeu pode manipular informação e um investidor europeu pode colocar interesses privados acima do bem público.
A autonomia não é inocência.
Não existem capitais moralmente puros apenas porque nasceram dentro das nossas fronteiras. O controlo democrático deve aplicar-se a todos, nacionais ou estrangeiros, públicos ou privados.
O poder que não precisa de fronteiras é difícil de combater precisamente porque se mistura com actividades legítimas. Chega através de um investimento, de uma aplicação, de uma notícia, de um patrocínio ou de uma mensagem partilhada por alguém em quem confiamos. Não veste uniforme e raramente anuncia as suas intenções.
Por isso, a resposta não pode ser o medo permanente de tudo o que vem de fora. Tem de ser a capacidade de olhar para dentro de cada relação e perceber quem depende de quem, quem controla o quê e que liberdade sobra quando os interesses deixam de coincidir.
A Europa será tanto mais aberta quanto mais segura estiver das suas próprias capacidades. Uma casa com fundações sólidas pode manter as janelas abertas sem recear cada vento.
O verdadeiro perigo não está em o mundo entrar na Europa. Está em a Europa deixar de saber quem abriu a porta, o que entrou por ela e se ainda consegue fechá-la.
