O Poder Feminino: terra, propriedade e controlo · parte 2 de 8

A terra cultivada tornou-se também herança e poder. Entre quem trabalhava e quem decidia, foram-se desenhando desigualdades.

Um campo cultivado guarda meses de trabalho. Alguém preparou a terra, acompanhou o crescimento das plantas e recolheu o que serviria de alimento. Mas quem podia decidir o destino da colheita? Quem tinha acesso à terra e quem ficaria com ela na geração seguinte? Estas perguntas levam-nos ao segundo momento desta série. Entre o trabalho necessário para sustentar uma comunidade e a autoridade para dispor dos seus recursos, abre-se uma distância que ajuda a compreender a história do poder.

A expansão da agricultura e da criação de animais alterou as possibilidades de acumular riqueza. Os campos, os rebanhos, as reservas de alimento e as construções podiam manter valor ao longo do tempo. Em determinados contextos, as diferenças entre famílias tornaram-se mais duradouras, porque os recursos passavam de uma geração para outra. A organização das comunidades passou a depender também das regras de acesso, uso e transmissão desses bens. A herança permitia prolongar uma vantagem muito para além da vida de quem a tinha adquirido.

Essas mudanças tiveram percursos diferentes. Em Çatalhöyük, na atual Turquia, vivia-se da agricultura e da criação de animais há cerca de nove mil anos. Um estudo genético publicado em 2025 encontrou uma importância particular das ligações maternas entre pessoas sepultadas nos mesmos edifícios. O resultado sugere que as mulheres tinham um papel central na formação dos grupos domésticos. Continua por esclarecer quanto isso representava em autoridade sobre a comunidade, mas o caso mostra que uma povoação agrícola podia organizar os seus laços familiares em torno das mulheres.

Muito mais tarde, e noutra região, encontramos uma configuração diferente. No vale do Lech, no sul da atual Alemanha, um estudo publicado em 2019 analisou comunidades de há cerca de quatro mil anos. Os investigadores identificaram a continuidade de bens e posição social através de linhagens masculinas, durante várias gerações. Muitas mulheres vinham de outras regiões e algumas foram enterradas com objetos que indicam elevado estatuto. Nos mesmos cemitérios apareciam também pessoas com poucos bens funerários. A desigualdade atravessava os próprios grupos domésticos, cruzando parentesco, origem e posição social.

Estes vestígios ajudam-nos a perceber que uma família também podia ser uma estrutura económica. O casamento ligava grupos, deslocava pessoas e podia contribuir para manter recursos dentro de determinadas linhagens. Onde a transmissão favorecia os descendentes masculinos, essa preferência tinha consequências para o lugar das mulheres. A possibilidade de permanecer junto da família de origem, participar nas decisões ou dispor de bens próprios podia fazer uma diferença profunda na autonomia de cada uma. A posição social também pesava: as mulheres de famílias favorecidas e as mulheres dependentes de outras pessoas não partilhavam necessariamente as mesmas condições.

É preciso ter igualmente presente o trabalho. As mulheres participaram no esforço físico que sustentava as comunidades agrícolas. Um estudo publicado em 2017, que comparou ossos de mulheres da Europa Central pré-histórica com os de mulheres atuais, incluindo atletas, evidenciou a intensidade do esforço a que estavam sujeitos os seus braços. Essa presença material impede-nos de imaginar um passado em que a produção pertencia aos homens e as mulheres assistiam de longe. O trabalho estava nos seus corpos, mesmo quando a autoridade sobre os recursos seguia outras regras.

Esta diferença entre contribuir e poder decidir parece-me essencial. Uma pessoa pode ser indispensável à vida de uma casa e ter pouca margem para escolher o seu próprio destino. Pode produzir alimento, transmitir conhecimentos e criar filhos, enquanto depende de decisões tomadas por outros. Reconhecer o valor dessas tarefas exige olhar também para os direitos e para a liberdade de quem as realiza. E a herança merece atenção precisamente porque pode transmitir tanto segurança como dependência, conforme o lugar que cada pessoa ocupa nas suas regras.

É neste cruzamento entre recursos, parentesco e autoridade que podemos estudar a consolidação de estruturas patriarcais em diferentes sociedades. A agricultura faz parte dessa história, mas nenhum campo semeado explica, sozinho, séculos de domínio masculino. As formas de casamento, as relações entre famílias e as instituições que se desenvolveram ao longo do tempo também precisam de entrar na análise. Os exemplos que chegaram até nós mostram diferenças suficientes para desconfiarmos de uma origem única ou de um destino inevitável.

Olhar para a terra é, assim, uma maneira de chegar às pessoas. Às que a trabalharam, às que puderam dispor dela e às que ficaram dependentes da vontade alheia. Quando certas regras atravessam gerações, podem acabar por parecer naturais a quem nasceu dentro delas. Na próxima parte, interessa perceber como essas regras também se transformaram em expectativas morais sobre as mulheres. Por agora, fica uma pergunta junto deste campo antigo: de que vale reconhecer as mãos que o cultivam, se continuamos sem perguntar quem tem o direito de escolher o que nelas fica?

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