No texto anterior, vimos como a moral foi usada para definir o lugar da mulher, o comportamento esperado e até aquilo que podia desejar. Mas essas regras não ficaram apenas nas palavras. Acabaram por pousar sobre o corpo. Disseram-lhe como devia aparecer, quanto espaço podia ocupar e que forma precisava de ter para ser aceite.
A maneira como uma sociedade olha para o corpo feminino diz muito sobre o seu tempo. A beleza nunca foi apenas uma questão de gosto. Também foi linguagem, estatuto, disciplina e poder. Aquilo que cada época apresentou como belo revelou os seus medos, as suas condições de vida e a ideia que fazia do papel das mulheres.
Não existiu, porém, um único caminho seguido por toda a humanidade. Os ideais mudaram entre povos, classes sociais e lugares. Mesmo dentro da mesma época, o corpo admirado num palácio podia não ser aquele que fazia sentido numa aldeia ou numa família obrigada a lutar diariamente contra a escassez. Quando olhamos para o passado, é fácil transformar séculos de diferenças numa linha demasiado simples.
As figuras femininas da pré-história, muitas delas marcadas por formas abundantes, continuam abertas a várias interpretações. Podem ter estado ligadas à fertilidade, à maternidade, à sobrevivência ou a crenças que já não conseguimos reconstruir por inteiro. Não sabemos exactamente como eram vistas por quem as criou. Sabemos apenas que o corpo feminino nem sempre foi imaginado dentro da estreiteza que hoje tantas vezes lhe é exigida.
Em diferentes momentos da história, a abundância corporal foi associada à saúde, à capacidade de gerar vida ou à existência de alimento. Num mundo em que a fome era uma presença real, um corpo cheio podia representar segurança. Mais tarde, certas pinturas do Renascimento e do Barroco deram visibilidade a formas que hoje dificilmente apareceriam numa campanha de moda sem serem corrigidas. Ainda assim, esses quadros também não eram fotografias de toda a sociedade. Mostravam ideais, símbolos e desejos de determinados grupos.
O corpo revelava igualmente a posição social. A pele clara podia indicar que uma mulher não trabalhava ao sol. A roupa apertada, os tecidos pesados e as estruturas que moldavam a cintura mostravam que aquela mulher não precisava de se mover como quem trabalhava no campo ou numa oficina. A beleza podia ser desconfortável, precisamente porque o desconforto também servia para separar quem tinha estatuto de quem precisava do corpo para sobreviver.
Com a modernidade, essa relação tornou-se mais organizada e mais visível. A medicina mediu, a indústria fabricou tamanhos, a moda criou temporadas e a publicidade aprendeu a transformar inseguranças em vendas. O corpo deixou de ser apenas aquilo que acompanhava uma vida. Passou a ser apresentado como um projecto permanente, sempre por concluir e quase sempre com alguma coisa para corrigir.
No século XX, o cinema, as revistas e a televisão espalharam imagens a uma escala que antes não existia. O ideal mudou várias vezes: ora se procurava uma silhueta quase sem curvas, ora se celebrava uma figura mais voluptuosa; houve décadas de magreza extrema e outras de corpos atléticos. A mudança constante devia ter-nos ensinado uma coisa simples. Se o modelo precisa de ser substituído de poucos em poucos anos, então não estamos perante uma verdade natural. Estamos perante uma moda que aprendeu a falar como se fosse uma regra.
O problema nunca foi uma mulher desejar ser magra, musculada, elegante, sensual ou discreta. O problema começa quando uma dessas possibilidades é apresentada como obrigação e todas as outras passam a ser tratadas como falhas. Uma escolha deixa de ser livre quando nasce do medo de não merecer amor, respeito ou visibilidade.
Hoje temos mais corpos a aparecer no espaço público, mas também temos mais olhos sobre cada corpo. As redes sociais abriram lugar a mulheres que durante décadas foram afastadas da publicidade e dos ecrãs. Ao mesmo tempo, multiplicaram filtros, comparações e imagens trabalhadas até parecerem naturais. O espelho deixou de estar apenas na parede. Passou a andar connosco no bolso e a mostrar, a qualquer hora, uma versão impossível de milhares de outras pessoas.
Há anos circulava uma comparação bem-humorada entre a sereia e a baleia. A sereia era esbelta, perfeita e imaginária, mas vivia sozinha. A baleia era grande, real, atravessava oceanos e vivia rodeada das suas semelhantes. Era apenas uma pequena provocação, não uma explicação para tudo. Ainda assim, lembrava uma verdade esquecida: a vida não precisa de caber num desenho impossível para ter beleza.
Também os movimentos de aceitação corporal trouxeram uma mudança importante. Não resolveram todas as pressões e, por vezes, até a ideia de aceitação se transforma numa nova exigência. Ninguém tem de amar o próprio corpo todos os dias para o respeitar. Talvez baste começar por não o tratar como inimigo, reconhecer o que ele atravessou e recusar que o seu valor seja decidido por uma medida, uma fotografia ou um comentário alheio.
A beleza pode continuar a existir. Pode ser prazer, cuidado, expressão e jogo. Não precisa de desaparecer para que as mulheres sejam livres. Precisa apenas de deixar de funcionar como fronteira entre as que merecem ser vistas e as que devem pedir desculpa por ocupar espaço.
Ao longo do tempo, o corpo feminino foi símbolo, propriedade, ideal, produto e campo de batalha. Agora tenta voltar a ser casa. Uma casa que muda, envelhece, adoece, recupera, deseja e guarda memória. Talvez o verdadeiro poder não esteja em atingir finalmente o corpo perfeito, mas em perceber quem lucra com a nossa insatisfação e escolher não lhe entregar todas as chaves.
Se cada época inventou a sua beleza, também nós podemos decidir que herança deixamos. Um novo molde seria apenas outra prisão. O que falta não é encontrar a forma certa de um corpo. É aceitar que a vida nunca teve uma única forma.
