O Poder Feminino: antes de a história lhes dar nome Memória, Silêncio e Reaparecimento · Parte 1 de 8

Antes das leis e dos impérios, as mulheres já participavam na construção do mundo. Um olhar sobre as origens e os silêncios da história.

Quando pensamos na história do poder, é fácil imaginarmos palácios, batalhas, coroas e nomes gravados na pedra. Esses sinais ajudam-nos a reconhecer quem mandava, mas deixam muita gente fora da imagem. As mulheres aparecem, por vezes, como rainhas ou figuras excecionais. As restantes, que também trabalharam, criaram e tomaram decisões, tornam-se mais difíceis de encontrar. É dessa diferença entre viver a história e ter lugar no seu relato que nasce esta série.

«O Poder Feminino: Memória, Silêncio e Reaparecimento» começa com uma pergunta: onde esteve o poder das mulheres ao longo do tempo? Interessa-me procurar tanto a autoridade visível como a influência exercida nos conhecimentos transmitidos, nas decisões da comunidade e na vida quotidiana. O caminho começa muito antes da escrita e atravessa sociedades diferentes. Exige, por isso, atenção ao que os vestígios permitem afirmar e ao espaço que continua por conhecer.

Antes de haver impérios, havia comunidades que precisavam de encontrar alimento, fabricar instrumentos, conhecer o território e atravessar as estações. Havia crianças para criar e saberes para transmitir. A sobrevivência dependia de um conjunto de tarefas que uma história centrada apenas nas conquistas tende a deixar na sombra. Quando procuramos as mulheres nesse passado, é também para esse trabalho que precisamos de olhar, sem decidir antecipadamente quem fazia o quê em todos os lugares e em todos os tempos.

Entre os vestígios que chegaram até nós estão pequenas representações de corpos femininos, como a Vénus de Willendorf, com cerca de trinta mil anos. As formas acentuadas de algumas destas figuras levaram a associá-las à fertilidade. Mas o seu significado permanece em discussão. Desconhecemos as intenções de quem as fez e os sentidos que lhes davam as pessoas que com elas conviviam. A pedra conservou a forma; a explicação perdeu-se pelo caminho.

Estas figuras, por si só, não permitem concluir que as mulheres governavam aquelas comunidades ou que existia uma religião comum dedicada a uma Grande Mãe. Convém guardar essa distância entre o objeto encontrado e a história que construímos à sua volta. Podemos reconhecer o interesse das representações femininas e continuar a fazer perguntas sobre o seu significado. Essa incerteza convida-nos a procurar outras pistas.

Também precisamos de olhar para além da maternidade. A capacidade de gerar vida teve consequências profundas na experiência das mulheres, mas nenhuma mulher se esgota nessa capacidade. Reduzir as mulheres do passado a mães, símbolos de fertilidade ou figuras de cuidado seria voltar a deixá-las presas a um papel. A pergunta deve abranger os seus conhecimentos, o trabalho, as escolhas possíveis e a participação na comunidade. Até uma imagem aparentemente elogiosa pode esconder uma vida inteira.

Um caso muito posterior ajuda a perceber quanto o nosso olhar ainda pode mudar. Em Valencina, perto de Sevilha, um enterramento da Idade do Cobre, com cerca de cinco mil anos, foi inicialmente atribuído a um homem. Um estudo publicado em 2023, com análise de proteínas do esmalte dos dentes, identificou uma mulher. A riqueza excecional do contexto funerário aponta para uma posição social de grande destaque. Passou a ser conhecida como a Senhora do Marfim. Ela sempre estivera ali; foi a leitura dos seus vestígios que mudou.

Para compreender estas diferenças de poder, teremos de recuar às mudanças ligadas à agricultura, à criação de animais e à formação de povoações mais duradouras. A terra, os alimentos armazenados e os bens que podiam passar de uma geração para outra ganharam importância na organização das comunidades. As mudanças ocorreram a ritmos diferentes e os seus efeitos precisam de ser estudados em cada contexto. Na Península Ibérica, por exemplo, a investigação sobre o Neolítico identificou indícios de desigualdades entre mulheres e homens. A relação entre terra, propriedade, herança e autoridade será o ponto de partida da próxima parte.

Começar esta série exige aceitar que há coisas que ainda desconhecemos. Da pré-história não nos chegaram testemunhos escritos, de mulheres ou de homens, e os vestígios obrigam-nos a uma leitura paciente. A essa distância, talvez o primeiro gesto seja alargar a atenção: dar valor ao trabalho quotidiano, procurar a participação de quem ficou pouco visível e resistir à tentação de preencher todos os silêncios com certezas. Antes de os documentos lhes guardarem os nomes, as mulheres já faziam parte de tudo o que tornava possível haver uma história para contar.

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