IP8 e A26: uma estrada, dois nomes e nenhum lugar para parar

A ligação entre Sines e a A2 avança, mas continua a esquecer algo básico: um lugar seguro para parar.

Há estradas que mudam de nome ao longo do caminho. Esta parece mudar de identidade. O IP8 começa junto à Rotunda do Terminal XXI e segue até à Rotunda da Barbuda, onde a A26 marca o seu quilómetro zero. A partir daí, documentos e placas vão misturando IP8, A26 e IC33. A própria Infraestruturas de Portugal utiliza a designação A26/IP8 para parte deste corredor. Para quem conduz, é sempre a mesma faixa de asfalto. Para quem tenta perceber o que está construído e o que ainda falta, parece um puzzle montado por vários governos.

Quando ouvi falar do segundo lanço, pensei imediatamente que se tratava da continuação da A26. Seria o mais lógico. Durante anos, o projeto previa que a autoestrada seguisse do Roncão por um traçado novo até Grândola Sul, onde encontraria diretamente a A2. Esse plano ficou pelo caminho e a solução escolhida acabou por ser outra: aproveitar o corredor atual do IP8 e do IC33, duplicando-o até Grândola Norte.

A empreitada entre o Roncão e Grândola Norte foi adjudicada ao consórcio formado pela Tecnovia e pela JJR por 66,8 milhões de euros. São cerca de 21,4 quilómetros que passarão a ter duas vias em cada sentido, incluindo a reformulação de três nós e de dois acessos à rotunda do IC1. O concurso estabelece um prazo de execução de 750 dias. É a continuação do lanço entre Relvas Verdes e o Roncão, entretanto praticamente concluído, e permitirá fazer quase toda a ligação entre Sines e a A2 num corredor com perfil de duas vias por sentido. A informação pode ser consultada na Infraestruturas de Portugal e na página da Tecnovia.

É uma boa notícia para quem utiliza esta estrada e para o Porto de Sines, que há demasiado tempo espera por uma ligação rodoviária à altura da sua importância. Mas convém não confundir as coisas. O projeto atual não recupera a antiga ligação direta da A26 à A2 em Grândola Sul. Duplica o percurso já existente até Grândola Norte, terminando junto ao IC1. Teremos uma estrada mais rápida, segura e capaz, mas não aquela autoestrada contínua que chegou a estar desenhada.

Há ainda outra ausência que quase nunca aparece nos anúncios das grandes obras: uma área de serviço. Quem vem pela A2 e segue para Sines tem a última área de serviço em Alcácer do Sal. Sai em Grândola Norte e continua até Sines sem encontrar um espaço próprio onde possa abastecer, ir à casa de banho, comer alguma coisa ou simplesmente descansar. Quem chega pelo IC1 ainda encontra a BP antes de virar para Sines, mas quem vem pela A2 fica entregue ao caminho.

O mais curioso é que esta necessidade não foi sempre ignorada. Na documentação do antigo projeto estava prevista uma área de serviço dupla perto do quilómetro 22,6, embora o respetivo projeto não fizesse parte daquela empreitada. A intenção ficou registada no papel, mas nunca chegou ao asfalto. Na documentação pública da atual ligação também não aparece uma alternativa equivalente. A referência antiga pode ser encontrada no processo ambiental da A26/IP8.

Numa ligação utilizada por pesados, trabalhadores, famílias e turistas, parar não é um capricho. É uma questão de segurança. Recomenda-se que os condutores façam pausas regulares, mas depois constroem-se quilómetros e quilómetros de estrada sem lhes dar um lugar adequado para isso.

A ligação entre Sines e a A2 vai finalmente avançar. Teremos mais faixas, mais capacidade e menos tempo perdido atrás dos camiões. Ainda assim, continuaremos a atravessar este corredor com a sensação de que alguém pensou muito na mercadoria e pouco na pessoa que vai ao volante.

Uma estrada não se faz apenas para chegar mais depressa. Também precisa de um lugar onde possamos parar.

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