Linkin Park ainda atravessa o ecrã

Vi em diferido, longe da multidão, mas houve ali qualquer coisa que não ficou presa ao palco.

Não estive no Rock in Rio. Não senti o chão a tremer, nem apanhei o calor da multidão e também não vi as luzes a abrir caminho por cima das cabeças. Vi o concerto dos Linkin Park em diferido, pela televisão, com a distância segura de quem sabe que um ecrã nunca substitui um recinto, mas mesmo assim houve qualquer coisa que passou. E quando um concerto consegue atravessar a sala, mesmo filtrado pela emissão, pelo som de casa e pela ausência do corpo colectivo, é porque ainda há força.

A palavra que me ficou foi esta: bruto. Não no sentido de barulho por barulho, nem de espectáculo feito apenas para esmagar. Bruto como uma descarga. Bruto como uma banda que entra em palco carregada de memória e, ainda assim, não fica ajoelhada diante dela. Há ali passado, claro que há. Seria impossível ouvir Linkin Park sem sentir tudo o que vem agarrado ao nome, às músicas, à voz que já não está, aos anos em que aquelas canções entraram pela vida de tanta gente como se fossem uma ferida aberta a cantar.

Mas este concerto não me pareceu apenas uma visita guiada à nostalgia. E talvez tenha sido isso que mais me agarrou. Havia memória, sim, mas havia também uma vontade de seguir. A nova era sente-se nesse equilíbrio difícil entre respeitar aquilo que foi e não ficar preso a uma redoma. As músicas antigas continuam a ter aquele peso quase físico. Quando entram temas como Crawling, Somewhere I Belong, In the End ou Numb, há uma parte de nós que regressa logo a outro tempo. Não é preciso explicar muito. Quem viveu estas músicas sabe onde elas moram.

Depois há o novo som. A entrada desta fase, com temas mais recentes, não soa apenas a remendo nem a exercício de sobrevivência. Soa a uma banda a tentar respirar outra vez. Pode não agradar a todos, e é normal que assim seja, porque há nomes que carregam demasiado passado para serem recebidos de forma limpa. Mas aquilo que vi pareceu-me honesto. Não apagou Chester, não tentou fingir que nada aconteceu, não meteu uma capa bonita por cima da perda. O concerto pareceu-me dizer outra coisa: isto existiu, isto doeu, isto continua.

Emily Armstrong tem uma tarefa quase impossível, porque ninguém entra num lugar destes sem ser comparado com uma ausência. E talvez a melhor coisa que ela tenha feito tenha sido não tentar ser essa ausência. A energia dela é outra. A voz rasga de outra maneira. O corpo em palco ocupa outro espaço. E isso, em vez de diminuir, dá algum sentido a esta nova fase. A banda não está a repetir exactamente o mesmo incêndio. Está a acender outro fogo com madeira antiga.

Visto de fora, sem o empurrão da multidão, sem copos no ar, sem braços levantados à minha volta, o concerto podia ter ficado frio. Não ficou. Houve momentos em que se sentiu o peso do público mesmo através da televisão, aquela massa humana a responder como se cada refrão ainda fosse uma coisa pessoal. E talvez seja isso que os Linkin Park sempre tiveram de mais forte: a capacidade de fazer músicas enormes parecerem íntimas, como se fossem gritadas por milhares de pessoas, mas também por uma só.

No fim, fiquei com a sensação de ter visto uma banda em travessia. Não uma banda igual à de antes, porque isso já não existe. Também não uma banda completamente nova, porque a memória continua lá, sentada ao lado de cada música. Vi outra coisa: Linkin Park a tentar encontrar uma forma de continuar sem negar a sombra que leva consigo.

E, para mim, isso chegou. Mesmo em diferido, mesmo no sofá, mesmo sem poder dizer que estive lá, deu para memória. Deu para ouvir a velha pancada e perceber a nova respiração. Deu para sentir que há concertos que não precisam de nos apanhar ao vivo para nos deixarem qualquer coisa nas mãos.

Este deixou.

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