Évora ficou-me ligada à escola de duas maneiras. Primeiro através de Aparição, de Vergílio Ferreira, e depois pela estrada, numa visita de estudo em que a cidade deixou de ser apenas um nome nos livros e passou a ter pedra, luz e distância.
Foi a última vez que lá estive. Já passou tempo suficiente para a memória ter apagado os caminhos entre os lugares, deixando apenas alguns pontos soltos, como fotografias que perderam a ordem dentro de uma caixa. Lembro-me do Templo de Diana, nome pelo qual continuamos a conhecer o Templo Romano, das colunas levantadas contra o céu e daquela estranha sensação de vermos uma construção tão antiga no meio de uma cidade que continua a viver à sua volta.
Numa visita de estudo, porém, raramente caminhamos verdadeiramente sozinhos. Há um grupo que avança, alguém que explica, horários a cumprir e colegas que tanto podem estar atentos como a falar de outra coisa qualquer. Ainda assim, certos lugares conseguem furar essa agitação e encontrar um espaço dentro de nós. O templo conseguiu.
Também entrámos num museu. O nome perdeu-se, embora me tenha ficado a ideia de ter gostado bastante dele. Talvez fosse o Museu de Évora, atualmente chamado Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, instalado junto da Sé e do Templo Romano. Sei apenas que não me ficou a sensação aborrecida de estar diante de vitrinas por obrigação. Alguma coisa naquele espaço me despertou curiosidade, mesmo que hoje já não consiga dizer exatamente o quê.
Durante muito tempo associei esse museu a qualquer coisa relacionada com a monarquia. Talvez a memória tenha misturado a visita com outro lugar da cidade. É possível que fosse o Palácio de D. Manuel, no Jardim Público, resto do antigo paço real onde a família real portuguesa passou temporadas e onde se cruzaram reis, cerimónias e episódios da história do país.
Do jardim também me lembro, embora não consiga reconstruí-lo por inteiro. Ficou-me como uma pausa verde entre tanta pedra, um lugar onde a visita abrandou e a cidade pareceu respirar de outra maneira. Talvez tenha sido apenas o momento em que nos sentámos um pouco, libertos das explicações e dos passos marcados pelo grupo. Às vezes, os jardins ficam-nos menos pelas árvores do que pela sensação de termos parado.
Évora regressou-me agora por causa de Aparição. Ao escrever sobre o livro, voltei a imaginar aquela cidade de ruas estreitas, fachadas claras e sombras curtas. Não sei até que ponto essa Évora pertence àquilo que vi ou à cidade que Vergílio Ferreira deixou dentro de mim. Há lugares que, depois de entrarem num livro, deixam de existir apenas no mapa.
Também não preciso de fingir que me lembro de tudo. Não recordo o itinerário, o nome do museu com certeza, as explicações do professor ou aquilo que almoçámos. Ficaram o templo, um museu que achei muito giro, um jardim e a sensação de caminhar numa cidade onde o passado não estava fechado atrás de uma porta. Aparecia nas pedras, nas colunas, nos edifícios e até nos espaços vazios entre uma rua e outra.
Talvez seja isso que ainda hoje me chama em Évora. Não apenas os monumentos, mas a maneira como diferentes tempos parecem viver lado a lado. O romano, o medieval, o religioso, o real e o quotidiano não estão arrumados em gavetas separadas. Encontram-se enquanto caminhamos.
Um dia gostaria de regressar sem a pressa de uma visita de estudo. Voltar ao templo, descobrir finalmente que museu era aquele, atravessar o jardim e procurar o palácio que talvez a memória tenha confundido. Não para repetir a viagem antiga, porque já não seria possível, mas para juntar os pontos que ficaram soltos.
Há cidades que guardamos inteiras. Évora ficou-me em fragmentos. Talvez seja por isso que ainda tenho vontade de lá voltar.
