Batalha Naval: quando a nova ordem mundial cabe num tabuleiro

As alianças mudam, o petróleo decide e os países viram coordenadas. A nova ordem mundial parece uma partida sem vencedores.

Na Batalha Naval bastam duas grelhas, alguns navios escondidos e uma sequência de coordenadas. Alguém diz B7, o outro responde água. Depois vem D4, tiro certeiro. Tudo é limpo, silencioso e reversível. No fim, recolhem-se as peças, apagam-se os riscos do papel e pode começar outra partida.

Talvez seja por isso que, olhando para o mundo de hoje, me lembre cada vez mais desse jogo. Os mapas enchem-se de pontos estratégicos, corredores marítimos, refinarias, portos e bases militares. Os países parecem quadrados numa grelha maior, enquanto os dirigentes anunciam movimentos como se estivessem a escolher a próxima coordenada. A diferença é que, fora do tabuleiro, ninguém responde apenas água. Há sempre alguém do outro lado.

Durante anos, os Estados Unidos apresentaram-se como o grande apoio da Ucrânia perante a invasão russa. Agora, Donald Trump diz que chegou a altura de os ucranianos terem um novo presidente, alguém que aceite fazer um acordo com Moscovo. A declaração surgiu depois de Washington chegar a um entendimento com Vladimir Putin para o regresso do gasóleo russo aos mercados e de Trump exigir que a Ucrânia deixe de atacar refinarias russas.

Isto não transforma automaticamente os Estados Unidos num aliado formal da Rússia. Mas torna difícil fingir que nada mudou. Quando uma potência estrangeira decide sugerir quem deve governar outro país, enquanto negoceia combustível com o Estado que o invadiu, a palavra paz começa a ter um significado estranho. Já não parece apenas o fim das armas. Parece também a aceitação das condições de quem consegue resistir durante mais tempo e controlar a energia de que os outros precisam.

É uma mudança de posição que diz muito sobre esta nova ordem mundial. Ontem, a Ucrânia era a peça que tinha de ser protegida. Hoje, começa a ser tratada como o obstáculo que está a fazer subir o preço do gasóleo. A Rússia, que deveria estar isolada pelas sanções, volta a ser chamada à mesa porque tem combustível para vender. A fronteira entre adversário e parceiro torna-se tão fina como uma linha desenhada a lápis numa folha quadriculada.

No mesmo fim de semana em que se discutia o negócio do gasóleo, um ataque russo em Zaporizhzhia matou vinte pessoas, entre elas três crianças. É aqui que o paralelismo com a Batalha Naval se desfaz por completo. No jogo, uma refinaria, um porto ou um prédio seriam apenas posições diferentes. Na realidade, uma coordenada pode conter uma casa, uma família e uma criança que faria anos no fim do mês. O mapa não mostra isso. O mapa nunca mostra tudo.

Mais a sul, a batalha naval deixou até de ser metáfora. A guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão colocou o Estreito de Ormuz no centro do conflito, uma passagem por onde circulava cerca de um quinto do petróleo mundial. Do outro lado da região, os houthis ameaçam o estreito de Bab el-Mandeb e as rotas do Mar Vermelho. A Arábia Saudita voltou a combater no Iémen, os aeroportos e as infraestruturas petrolíferas passaram a ser alvos e Washington admite juntar-se aos ataques sauditas.

Há navios, bloqueios, estreitos e rotas de abastecimento. Há petroleiros que precisam de proteção militar e países inteiros que observam o preço do combustível antes de decidirem até onde estão dispostos a ir. O petróleo já não é apenas aquilo que financia a guerra. Tornou-se parte do armamento. Fecha-se uma passagem marítima, ataca-se uma refinaria, bloqueia-se um porto e milhões de pessoas, a milhares de quilómetros, sentem o impacto sem nunca terem visto o tabuleiro onde a jogada foi feita.

Talvez a nova ordem mundial seja precisamente isto: menos alianças permanentes e mais acordos de ocasião. Os amigos de ontem tornam-se incómodos quando afetam o preço da energia. Os inimigos de ontem voltam a ser fornecedores quando as reservas começam a diminuir. As palavras democracia, soberania e liberdade continuam nos discursos, mas perdem espaço quando entram em cena o petróleo, as eleições e o medo de uma crise económica.

Não significa que todos sejam iguais nem que todas as responsabilidades se confundam. A Rússia invadiu a Ucrânia. O Irão, os Estados Unidos, Israel, a Arábia Saudita e os houthis têm papéis e decisões diferentes nos conflitos que atravessam o Médio Oriente. Apagar essas diferenças seria outra forma de transformar a realidade num jogo simples. O que se começa a tornar comum é a facilidade com que as grandes potências mudam o discurso quando os seus interesses mudam.

Fala-se muito de paz, e é evidente que todas estas guerras precisam de terminar. Mas uma paz imposta apenas para baixar o preço do gasóleo pode não ser paz. Pode ser apenas uma pausa conveniente para quem está longe das ruínas. Uma paz que começa por dizer a um povo quem deve ser o seu presidente também não parece nascer da democracia. Parece nascer da pressa de arrumar peças antes da próxima partida.

Na Batalha Naval há regras, dois jogadores e um vencedor. No mundo real, há demasiadas mãos sobre a mesma grelha e milhões de pessoas que nunca escolheram sentar-se à mesa. Os dirigentes anunciam coordenadas, os mercados respondem, os exércitos avançam e nós acompanhamos tudo por mapas cada vez mais coloridos.

Depois, alguém diz que foi um tiro certeiro, mas nunca foi apenas um navio.

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