“Ver Braga por um canudo” é uma daquelas expressões que ouvimos desde sempre, quase sem pensarmos no lugar que lhe deu origem. Costuma significar que alguém ficou sem aquilo que esperava, condenado a observar de longe. No Bom Jesus, porém, a expressão ganha um sentido mais literal.
Já fui várias vezes ao Bom Jesus. Talvez por isso não o guarde como uma única visita, fechada numa data concreta. As memórias foram-se acumulando: a dimensão do escadório, o esforço da subida, a curiosidade pelo elevador e, numa das últimas vezes, um pôr do sol visto lá do alto.
Subir pelo escadório é aceitar o desafio que a encosta coloca diante de nós. Vista de baixo, a escadaria parece maior do que aquilo que imaginávamos. Um lanço conduz ao seguinte e cada patamar permite recuperar o fôlego antes de continuarmos.
Há lugares onde chegamos quase sem perceber o caminho. No Bom Jesus, quando escolhemos as escadas, a chegada é conquistada degrau a degrau. O ritmo abranda, o corpo sente a inclinação e o lugar vai sendo descoberto aos poucos.
Numa dessas visitas, subi pelas escadas e desci no elevador. Depois do esforço de cada degrau, entrar naquela carruagem e deixar que o sistema de contrapeso de água controlasse a descida pareceu quase uma recompensa.
O elevador acompanha o escadório, mas oferece uma experiência completamente diferente. Nas escadas, somos nós que vencemos a encosta. No elevador, entregamo-nos ao mecanismo, à água e à gravidade. A viagem é curta, mas há qualquer coisa de fascinante na simplicidade de um engenho que continua a funcionar depois de tantas gerações.
Trata-se do mais antigo funicular do mundo ainda em funcionamento a utilizar o sistema de contrapeso de água. Não é apenas uma forma prática de subir ou descer. É uma máquina viva, integrada no próprio lugar e na memória de quem por ali passa.
Mas a subida não termina necessariamente no Bom Jesus. Mais acima encontra-se o Sameiro, como se a paisagem nos lembrasse que ainda existe outro ponto para alcançar. O Bom Jesus e o Sameiro parecem conversar entre si através da distância, ligados pela encosta e pela forma como observam Braga lá em baixo.
Numa das últimas vezes em que estive no Bom Jesus, fiquei para ver o pôr do sol. Àquela hora, o lugar ganhava outro ritmo. A luz começava a mudar, as sombras alongavam-se e a cidade parecia perder lentamente os seus contornos mais duros.
Braga estava lá em baixo, mas já não era apenas um conjunto de ruas e edifícios. Vista do alto, sob a luz do fim do dia, parecia mais silenciosa. O sol descia e a cidade ia-se transformando diante de mim, como se também ela parasse por alguns instantes.
Talvez seja essa a memória que melhor resume as minhas visitas. Primeiro, a subida exige esforço. Depois, a paisagem abre-se. Por fim, quando o sol começa a desaparecer, percebemos que não precisamos de fazer mais nada. Basta ficar e olhar.
O escadório mostrou-me o valor de chegar devagar. O elevador recordou-me como uma ideia antiga pode continuar viva. O Sameiro mostrou que, mesmo depois de chegarmos ao alto, ainda pode existir outro ponto mais acima. E o pôr do sol deu-me uma razão para não ter pressa de regressar.
Já vi Braga por um canudo várias vezes. Mas foi ao pôr do sol que a cidade deixou de parecer distante.
