Aveiro, onde a água anda devagar

Fui a Aveiro à procura da tal Veneza portuguesa, mas trouxe outra coisa: água na memória e flor de sal num frasco.

Há lugares que conhecemos antes de lá chegar. Aveiro era um desses lugares para mim. Já tinha ouvido tantas vezes chamar-lhe a Veneza portuguesa que, quando finalmente lá fui, levava essa imagem na cabeça: canais, barcos, água a cortar a cidade, aquele postal bonito que já parece vir pronto antes de a gente pôr os pés no chão.

Mas os lugares, quando são verdadeiros, raramente se deixam ficar dentro da alcunha que lhes deram.

Aveiro recebeu-me com água. Não aquela água dramática de mar aberto, nem aquela água apressada de rio cheio. Era uma água mais calma, quase doméstica, a passar pela cidade como se fizesse parte das ruas. Andei num barco pela ria e talvez tenha sido aí que percebi melhor a cidade. Há sítios que se visitam melhor a caminhar. Aveiro, pelo menos naquela memória, também se entende a deslizar.

A água muda-nos o olhar. Vemos as fachadas de outra maneira, as pontes, os barcos, a luz pousada nas coisas. De repente a cidade não está só à nossa frente, está à volta. Move-se devagar connosco.

Os moliceiros estavam ali, coloridos, compridos, meio vaidosos, a atravessar a água com aquela presença de quem já sabe que vai ser fotografado. E claro que uma pessoa olha. São bonitos. Têm graça. Mas o que me ficou não foi só a cor. Foi pensar que aqueles barcos não nasceram para enfeitar passeios. Vieram de uma vida de trabalho, da ria, do moliço, de gente que conhecia a água como quem conhece uma rua antiga.

Gosto quando um lugar ainda deixa ver esse fundo. Mesmo que agora haja turismo, bilhetes, fotografias e telemóveis levantados, há qualquer coisa ali que vem de trás. Uma cidade não se inventa só para ser visitada. Aveiro já existia antes de lhe chamarem Veneza.

E talvez seja por isso que a comparação me começou a parecer pequena.

Não porque Veneza não seja bela, mas porque Aveiro não precisa de pedir emprestado o encanto de outro lugar. Tem o seu próprio. Tem salinas, tem fachadas com detalhe, tem azulejos, tem ruas que se deixam passear, tem a ria a entrar-lhe no corpo e tem aquele ar de cidade que vive entre a terra e a água sem escolher totalmente uma delas.

Lembro-me também de comprar num quiosque um frasco de flor de sal. Parece uma coisa pequena, quase nada, mas há lembranças que cabem melhor num objecto simples do que numa fotografia. Aquele frasco era um pedaço da paisagem para levar para casa. Sal, sol, água, espera. Um bocadinho de Aveiro guardado em vidro.

Depois há os ovos moles. E sim, isto pode parecer detalhe de guloso, mas não é só isso. Há doces que pertencem ao sítio onde nasceram. Comemos e percebemos que não são apenas açúcar e gema. Trazem convento, tempo, mãos, receita antiga e aquela delicadeza portuguesa que às vezes cabe inteira numa coisa pequena.

Lembro-me de caminhar sem grande plano. Talvez seja a melhor maneira de encontrar Aveiro. Não andar atrás de uma lista, nem tentar cumprir a cidade como se fosse tarefa. Só ir. Ver a água. Parar numa ponte. Olhar para um barco. Reparar numa fachada. Comprar flor de sal num quiosque e seguir com a sensação estranha de levar uma cidade no bolso.

Foi aí que Aveiro me ganhou. Não na comparação com Veneza, nem na frase feita, nem no postal. Ganhou-me no ritmo. Naquela maneira mansa de estar, como se a cidade soubesse que a beleza não precisa de gritar.

Voltei com essa ideia: há caminhos que não se fazem apenas com os pés. Fazem-se também com a forma como um lugar nos muda a respiração.

Aveiro fez isso comigo.

Abrandou-me.

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