A vila que muda de dono

No verão, Milfontes enche-se de vida, mas quem cá vive sente por vezes que a vila deixa de lhe pertencer.

Há um momento do ano em que Vila Nova de Milfontes continua no mesmo lugar, mas deixa de parecer a mesma vila. As casas não mudam, o rio continua a correr e as ruas conservam os nomes de sempre. No entanto, basta chegar o verão para tudo ganhar outro ritmo. As vozes multiplicam-se, os carros ocupam cada espaço disponível e os caminhos que percorremos sem pensar passam a exigir tempo, paciência e alguma resignação.

Quem vive aqui durante todo o ano aprende a reconhecer essa mudança antes mesmo de ela acontecer por inteiro. Primeiro chegam alguns carros carregados de malas, depois outros, até as esplanadas se encherem, as filas crescerem e os supermercados deixarem de ter horas tranquilas. Estacionar perto de casa passa a parecer uma pequena vitória. A vila fica cheia de vida, e isso também faz parte dela.

Chegam pessoas que passaram meses à espera de ver o mar, atravessar a ponte sobre o Mira, caminhar pelas praias ou sentar-se numa esplanada sem olhar para o relógio. Para muitos, Milfontes representa descanso, liberdade e alguns dias longe das obrigações. Não podemos censurá-los por procurarem aqui aquilo que nós temos a sorte de encontrar durante todo o ano. O turismo dá trabalho, sustenta negócios e permite que muitas portas permaneçam abertas.

Há famílias que dependem destes meses, cafés, restaurantes, alojamentos, lojas e serviços que vivem do movimento de verão. Fingir que a vila não precisa de quem chega seria ignorar uma parte importante da sua realidade. Mas há outra verdade, menos confortável. Durante algumas semanas, quem vive aqui sente que precisa de pedir licença para continuar a viver na própria terra.

Uma ida rápida às compras deixa de ser rápida. O caminho para a praia transforma-se numa fila, o café onde conhecemos toda a gente já não tem lugar e até as tarefas mais simples precisam de ser pensadas para evitar as horas de maior confusão. As ruas enchem-se de pessoas que caminham devagar porque estão de férias, enquanto nós continuamos a ter horários, trabalhos, compromissos e vidas que não pararam com a chegada de agosto.

Não é culpa de quem vem. Cada visitante ocupa apenas um pequeno espaço, estaciona um carro, reserva uma mesa ou compra aquilo de que precisa. O problema nasce quando milhares de pequenos gestos acontecem ao mesmo tempo numa vila que não cresceu ao mesmo ritmo. Milfontes foi-se tornando maior sem ganhar verdadeiramente mais espaço.

Construíram-se casas, apartamentos e alojamentos, chegaram mais visitantes, mais trânsito e mais procura. No entanto, as ruas continuam estreitas, os estacionamentos limitados e muitos serviços permanecem pensados para uma população muito menor. A vila enche-se por fora, mas nem sempre se prepara por dentro. Talvez seja isso que provoque esta sensação estranha de mudança de dono.

Não porque alguém nos expulse, mas porque os lugares habituais deixam de estar disponíveis. Aquilo que durante o inverno pertence à vida diária passa a ser ocupado pela temporada. Até o silêncio muda. No inverno, há noites em que se ouve o vento atravessar as ruas, o rio parece respirar mais devagar e a vila recolhe-se sobre si própria. No verão, as conversas prolongam-se, as portas ficam abertas e a noite parece não encontrar lugar para pousar.

Viver numa terra turística é aprender a aceitar esta contradição. Precisamos de quem vem, mas sentimos falta da vila quando ela fica cheia. Queremos movimento para o comércio, mas também espaço para respirar. Gostamos de ver as ruas vivas, embora por vezes procuremos um caminho onde ainda consigamos reconhecer-nos.

Talvez o problema não esteja nas pessoas, mas na forma como a vila foi sendo preparada para recebê-las. Durante demasiado tempo, o turismo foi tratado apenas como uma oportunidade: mais camas, mais mesas, mais casas, mais visitantes. Raramente se perguntou quantas pessoas uma vila pequena consegue receber sem perder aquilo que as trouxe até aqui. Ninguém vem a Milfontes à procura de filas, confusão ou ruas bloqueadas.

Vêm pela paisagem, pelo rio, pelas praias, pela calma e pela ideia de uma terra que ainda conserva alguma distância das cidades. Se essa calma desaparecer, desaparece também uma parte da razão pela qual continuam a chegar. É uma conta difícil. Uma vila não pode fechar as portas, mas também não pode abrir tantas que deixe de ter casa.

Quem cá vive há muitos anos reconhece os dois rostos de Milfontes. O da vila pequena, onde quase todos se conhecem e o inverno devolve espaço às ruas, e o da terra de verão, cheia de sotaques, movimento e gente que chega com vontade de guardar uma memória. Nenhum desses rostos é falso. Ambos pertencem à vila.

O que custa é a passagem de um para o outro. De repente, aquilo que era rotina transforma-se numa espécie de resistência. Mudam-se horários, evitam-se ruas, adiam-se tarefas e escolhem-se caminhos menos diretos. Quem cá vive adapta-se, como se fosse visitante no lugar onde sempre esteve.

Talvez seja por isso que, no fim de agosto, sentimos uma mistura estranha de alívio e melancolia. As ruas começam a esvaziar-se, voltam a aparecer lugares para estacionar, os supermercados recuperam corredores mais tranquilos e as praias deixam espaço entre as toalhas. A vila regressa lentamente a quem ficou. Mas também diminuem as vozes, alguns negócios perdem o movimento que os sustentou e o verão leva consigo uma energia que, apesar de tudo, também fazia falta.

Não queremos uma vila vazia. Queremos apenas que ela consiga receber sem afastar quem nela vive. Talvez o futuro de Milfontes dependa desse equilíbrio, não de escolher entre residentes e visitantes, mas de compreender que uns não podem existir à custa dos outros. Uma terra turística precisa de quem chega, mas precisa primeiro de continuar habitável para quem fica.

As fotografias mostram as praias, o castelo, a ponte e o rio. Mas uma vila não é apenas aquilo que se visita. É também quem abre as portas de manhã, quem trabalha durante o calor, quem espera nas filas, quem conhece os invernos e quem permanece quando as malas já foram arrumadas.

No verão, Milfontes parece mudar de dono. Em setembro, regressa devagar. Talvez nunca tenha deixado verdadeiramente de ser nossa. Talvez apenas tenha ficado escondida debaixo de tanta gente, à espera de voltar a respirar.

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