4 Non Blondes, a voz que voltou a perguntar o que se passa

As 4 Non Blondes vêm a Portugal, e “What’s Up?” continua a soar como uma pergunta que nunca ficou resolvida.

Nos anos 90, houve uma música que parecia tocar em todo o lado. Saía das rádios, dos quartos, dos carros com os vidros abertos, daqueles programas de televisão onde uma canção podia ficar presa à memória de uma geração inteira. Bastavam poucos segundos para reconhecer aquela voz crua, enorme, quase em ferida aberta. Linda Perry não cantava “What’s Up?” como quem queria apenas fazer um refrão bonito. Cantava como quem precisava mesmo de atirar uma pergunta ao mundo.

A banda era as 4 Non Blondes, e agora vêm a Portugal. Com pena minha, não vou ver. Fica aquele sabor estranho de saber que uma voz que atravessou a minha memória vai estar ali, num palco perto o suficiente para doer, mas longe o bastante para continuar a pertencer ao território das canções que se ouvem por dentro.

Talvez por isso me apeteça voltar a esta banda sem a tratar apenas como nostalgia. Porque há músicas que ficam presas a uma década, e há outras que atravessam o tempo com a mesma pergunta ao ombro. “What’s Up?” pertence a esse segundo grupo. Continua ali, meio grito, meio desabafo, meio tentativa de perceber o mundo antes que o mundo nos engula.

As 4 Non Blondes formaram-se em 1989, em São Francisco, num tempo em que o rock alternativo ainda tinha muito de rua, garagem, urgência e desalinho. Linda Perry estava na voz, Roger Rocha na guitarra, Christa Hillhouse no baixo e Dawn Richardson na bateria. O nome nasceu de uma brincadeira simples: nenhuma das quatro era loura, e isso bastou para criar uma identidade. Não era um nome bonito no sentido clássico. Era estranho, directo, memorável. Como a própria banda.

A carreira foi curta, mas deixou marca. Em 1992 lançaram Bigger, Better, Faster, More!, o único álbum de estúdio da banda. O disco vendeu milhões de cópias e deu ao mundo uma daquelas canções que acabam maiores do que o grupo que as gravou. Isso pode ser uma bênção e uma prisão. Há bandas que passam uma vida inteira à procura de uma música assim. Mas quando ela acontece, começa também a engolir tudo à volta.

E foi um pouco isso que aconteceu. “What’s Up?” tornou-se maior do que as 4 Non Blondes. Ficou como hino de uma geração que talvez nem soubesse bem o que estava a cantar, mas sabia perfeitamente o que estava a sentir. Aquela voz tinha qualquer coisa de desalinho bonito, como se Linda Perry estivesse a cantar depois de uma noite sem dormir, com a garganta cansada e a alma ainda em pé.

O sucesso trouxe exposição, mas também desgaste. Linda Perry acabou por sair da banda, desconfortável com o rumo que o projecto parecia estar a tomar. Seguiu carreira a solo, lançou In Flight e After Hours, mas foi como compositora e produtora que construiu uma segunda vida ainda maior. Trabalhou com Pink, Christina Aguilera, Gwen Stefani, Celine Dion, James Blunt e muitos outros. Ou seja, a mulher que muita gente guardou apenas como “a voz de What’s Up?” continuou, durante anos, a escrever por dentro de muitas outras vozes.

Há ainda um detalhe que nos aproxima dela de forma curiosa. Linda Perry nasceu em Springfield, Massachusetts, filha de pai português e mãe brasileira. Talvez isso não explique nada, mas dá um pequeno brilho ao reencontro. Uma voz que marcou tanta gente por cá chega agora a Portugal com uma história que também tem qualquer coisa nossa, mesmo que nunca tenha precisado disso para nos tocar.

As 4 Non Blondes pertencem a uma categoria muito própria de bandas. Não são daquelas que se medem por dezenas de álbuns, fases, reinvenções e digressões intermináveis. São outra coisa. São uma faísca. Um álbum, uma voz, uma canção que recusou desaparecer. E às vezes uma faísca basta para iluminar uma década inteira.

Por isso, este regresso não é apenas nostalgia. Claro que há memória, há rádio antiga, há adolescências guardadas, há cassetes, CDs, videoclipes e aquela sensação de descobrir uma música antes de sabermos explicar porque nos acertava tão fundo. Mas há também uma coisa mais simples e mais bonita: certas canções voltam porque nunca chegaram realmente a ir embora.

Agora, num ano em que se fala até em novo material da banda, “What’s Up?” deixa de ser apenas uma recordação dos anos 90 e volta a respirar no presente. Não sei se isso muda alguma coisa. Talvez não. Mas gosto da ideia de uma canção antiga continuar a abrir portas, como se ainda tivesse qualquer coisa por dizer.

Quando Linda Perry cantava “hey, what’s going on?”, a pergunta parecia vir de dentro de alguém perdido no mundo. Trinta e tal anos depois, continua a fazer sentido. Talvez até faça mais. O mundo mudou, nós mudámos, as bandas acabaram, voltaram, envelheceram, e a pergunta ficou ali, teimosa, à espera de nova resposta.

As 4 Non Blondes vêm a Portugal, e eu não vou estar lá. Ficarei deste lado, com a memória acesa e a canção de volta à cabeça. Às vezes também é assim que se vive a música: não no meio da multidão, mas naquele lugar íntimo onde uma voz antiga volta a entrar, levanta poeira, e pergunta outra vez o que raio se passa.

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