Tavira, o Algarve que fala mais baixo

Tavira ficou-me como um Algarve mais baixo e sereno, atravessado pelo Gilão, por uma ponte antiga e por casas à medida das ruas.

Há lugares no Algarve que chegam até nós cobertos pelo ruído do Verão, pelos hotéis altos, pelas praias cheias e pelas estradas onde todos parecem querer chegar ao mesmo tempo. Tavira ficou-me de outra maneira. Mais baixa, mais calma, atravessada por um rio e por uma ponte que parece unir não apenas duas margens, mas dois ritmos da mesma cidade.

É uma cidade, embora conserve qualquer coisa de vila. Talvez sejam as casas que não procuram crescer demasiado, as fachadas claras, os telhados antigos e as ruas onde ainda conseguimos olhar para o outro lado sem termos um edifício enorme a tapar o céu. Tavira não me pareceu querer impressionar pela força. Foi entrando pelos pormenores.

O rio Gilão atravessa o centro sem separar verdadeiramente a cidade. Pelo contrário, parece organizá-la. De um lado e do outro ficam casas, esplanadas, ruas e pequenos movimentos quotidianos que se reflectem na água. Ao centro está a Ponte Antiga, com os seus sete arcos, o tabuleiro ligeiramente curvo e o passo tranquilo de quem a atravessa sem carros por perto. A ponte actual guarda sobretudo a forma que recebeu no século XVII, embora seja muito mais antiga e continue envolta em dúvidas sobre as suas primeiras origens. 

É essa ponte que mais me fica quando penso em Tavira. Não apenas como monumento, mas como parte da vida da cidade. Há pontes que servem apenas para passar. Aquela convida a parar, olhar o rio, reparar nas fachadas e decidir que não há pressa nenhuma em chegar à outra margem.

Também me ficaram as casas. Não muito altas, alinhadas sem esmagarem a rua, algumas brancas, outras com cores discretas nas molduras, nas portas e nas janelas. No alto surgem os telhados de tesoura, também chamados telhados de tesouro, uma das marcas próprias da arquitectura de Tavira. São coberturas formadas por vários telhados pequenos, cada um sobre a sua divisão, criando no horizonte uma espécie de movimento irregular. 

Talvez seja aí que Tavira se distingue do Algarve mais construído para ser visto de passagem. A cidade não se entrega toda numa fotografia. É preciso andar junto ao rio, atravessar a ponte, entrar numa rua, levantar os olhos para os telhados e deixar que as coisas pequenas se juntem.

Não me ficou uma lista de monumentos nem um percurso exacto. Ficou-me uma atmosfera. Um Algarve mais tradicional, onde a arquitectura ainda mantém uma medida humana e o rio oferece um centro natural à cidade. Mesmo quando há movimento, Tavira parece guardar uma espécie de sossego por baixo dele.

É possível que esta imagem esteja também misturada com o tempo que passou. As cidades mudam e nós mudamos com elas. Aquilo que recordamos não é apenas o lugar, mas o modo como o encontrámos. No meu caso, Tavira ficou como uma cidade pitoresca sem precisar de se esforçar para o parecer.

Há qualquer coisa de antigo naquela relação entre o casario e a água. As fachadas olham o rio, a ponte prende as duas margens e os telhados desenham uma linha que nunca é completamente direita. Tudo parece ter sido construído numa escala que ainda permite caminhar sem nos sentirmos pequenos.

Quando penso num Algarve diferente, penso nisso. Não na ausência de sol ou de visitantes, porque Tavira também pertence ao sul e recebe quem por ali passa. Penso numa cidade que não perdeu completamente a sua voz de terra antiga, ligada ao rio, às casas e às pessoas que continuam a atravessar a mesma ponte.

Tavira não me ficou como um lugar de grandes gestos. Ficou-me como uma cidade que fala mais baixo. Talvez por isso ainda consiga ouvi-la.

2