Há curiosidades que parecem inventadas, mas não são. Portugal, esse país onde hoje toda a gente conduz pela direita quase sem pensar nisso, já circulou pela esquerda. Sim, como em Inglaterra. A estrada era a mesma, os hábitos é que estavam do outro lado.
A mudança aconteceu em 1928. No dia 1 de Junho desse ano, Portugal passou oficialmente a circular pela direita. Visto daqui, parece uma coisa simples: muda-se a regra, muda-se o lado da estrada e pronto. Mas não devia ser assim tão simples para quem acordou num país onde, de repente, o trânsito tinha de se comportar ao contrário.
Imagino a confusão. Condutores habituados a uma lógica, carroças e veículos de tracção animal ainda presentes nas estradas, eléctricos nas cidades, peões a tentar perceber onde olhar primeiro, polícias a orientar o trânsito, jornais a avisar, cartazes espalhados pelas ruas. Hoje bastaria uma campanha nas redes sociais, uns vídeos explicativos e notificações no telemóvel. Na altura havia letreiros, jornais, avisos e muita repetição.
A frase era directa: Pela Direita. Aparecia em dísticos, em placards, em avisos. Era preciso martelar a ideia, porque mudar o lado da circulação não era apenas alterar uma regra. Era mexer num gesto automático. E os gestos automáticos são talvez os mais difíceis de mudar. Quem conduz sabe isso. Há coisas que fazemos sem pensar. O corpo aprende a estrada. A mão, o olhar, a distância, a ultrapassagem. De um dia para o outro, tudo isso teve de ser reeducado.
Também havia um lado quase cómico nesta história. A expressão “pela direita” prestava-se a trocadilhos, sobretudo num tempo politicamente carregado. Mas, tirando a graça da frase, a mudança era prática. Portugal alinhava-se com grande parte da Europa continental e tentava modernizar uma circulação que já não podia continuar entregue apenas ao costume.
O mais curioso é pensar que isto não aconteceu num tempo de auto-estradas, rotundas por todo o lado e trânsito infernal à porta das cidades. Era outro país. Havia menos automóveis, claro, mas também menos regras consolidadas, menos sinalização, menos preparação. O automóvel ainda era relativamente novo na vida portuguesa, mas já começava a obrigar o país a organizar-se. A estrada deixava de ser apenas caminho. Passava a ser sistema.
E um sistema precisa de regras. Precisa de sinais. Precisa de pessoas que saibam para onde ir. Por isso se fizeram campanhas, se publicaram avisos, se colocaram letreiros e se pediu prudência. Nos primeiros tempos recomendava-se que os condutores não abusassem da velocidade. Não era caso para grandes aventuras. O país estava literalmente a aprender a ir para o outro lado.
Há qualquer coisa bonita nestas mudanças antigas. Hoje olhamos para elas como curiosidade, mas na altura eram vida real. Alguém saiu de casa naquele dia e teve de se lembrar: “agora é pela direita”. Um cocheiro teve de contrariar o hábito. Um taxista teve de prestar mais atenção. Um peão teve de olhar para o lado certo. Um polícia teve de repetir a mesma indicação centenas de vezes. E, algures, um letreiro pendurado lembrava a todos aquilo que agora nos parece óbvio.
Talvez seja isso que torna esta história engraçada. As coisas mais normais do presente já foram novidades estranhíssimas. Aquilo que hoje fazemos sem pensar já foi notícia, campanha, aviso, receio e conversa. Um dia, Portugal inteiro teve de mudar de mão.
Desde então, seguimos pela direita. Tão naturalmente que quase esquecemos que, antes disso, durante muito tempo, o caminho foi outro. E talvez as boas curiosidades sirvam para isto mesmo: para nos lembrar que até as regras mais banais têm uma história escondida por baixo do alcatrão.
