Nickelback: três músicas para não deixar para trás

Leave Me Behind abriu a porta, mas trouxe mais duas canções consigo. Os Nickelback regressam com peso, energia e uma voz impossível de confundir.

Há bandas de que parece ser obrigatório gostar em segredo. Como se fosse necessário olhar primeiro para os lados, confirmar que ninguém está a ouvir e só depois aumentar o volume. Os Nickelback vivem há muito tempo nesse estranho lugar. Vendem milhões, enchem salas, atravessam gerações e, ainda assim, há sempre alguém disposto a explicar-nos por que razão não deveríamos gostar deles.
Eu nunca tive grande paciência para gostos aprovados por comité. Uma música ou me encontra, ou passa ao lado. Pode vir acompanhada das melhores críticas do mundo e não me dizer nada. Também pode trazer atrás de si todas as piadas feitas durante vinte anos e acertar precisamente onde tem de acertar. No fim, é isso que conta. Foi o que aconteceu com Leave Me Behind.
Encontrei o novo single dos Nickelback no Spotify, carreguei para ouvir e a reação apareceu sem precisar de muitas palavras: muito bom. I like. Há momentos em que complicar só estraga. A voz de Chad Kroeger entra e reconhecemos imediatamente o terreno, mas a música não vive apenas dessa familiaridade. Há peso, há melodia e há uma tensão que cresce sem perder o lado emocional.
O próprio título joga em duas direções. Fala de ajudar alguém a deixar para trás aquilo que o destruiu, mas também do receio de sermos nós a ficar para trás quando essa pessoa conseguir seguir em frente. É uma canção sobre permanecer ao lado de alguém enquanto os pedaços voltam lentamente ao lugar. Não promete apagar as feridas. Limita-se a dizer que ninguém devia ter de carregar tudo sozinho. Talvez tenha sido isso que me agarrou logo à primeira escuta. Por baixo das guitarras existe uma fragilidade que não tenta esconder-se.
Depois reparei que aquele lançamento não vinha sozinho. O Spotify reúne três músicas sob o nome de Leave Me Behind. À faixa que me levou até ali juntam-se Rattle The Cage, com John 5, e Bones For The Crows. Não são três variações da mesma ideia. São três maneiras diferentes de anunciar que os Nickelback têm um novo álbum a caminho.
Rattle The Cage não entra devagar. Faz exatamente aquilo que o título promete e abana as grades com guitarras mais duras, bateria pesada e energia de palco. A participação de John 5 acrescenta-lhe ainda mais nervo, mas a música continua a soar inequivocamente a Nickelback. É daquelas faixas que parecem feitas para crescer diante de milhares de pessoas, com o refrão a regressar das bancadas como uma onda.
Já Bones For The Crows traz outra sombra. É mais escura, mais densa e menos interessada em pedir licença. Há nela uma força quase ameaçadora, como se a banda quisesse recordar que nunca viveu apenas das baladas e dos refrões mais fáceis de cantar. O som tem músculo, mas não é peso colocado só para fazer barulho. Existe ali uma atmosfera que fica depois de a música terminar.
As três juntas acabam por funcionar como um pequeno mapa. Rattle The Cage abre a porta aos pontapés. Bones For The Crows entra pela zona mais sombria. Leave Me Behind aproxima-se, baixa um pouco a voz e fica connosco. São diferentes, mas pertencem claramente ao mesmo universo. E talvez seja essa a melhor forma de preparar Everything Under The Sun, o novo álbum que chega a 30 de outubro.
Será o primeiro álbum de estúdio dos Nickelback desde Get Rollin', lançado em 2022, e estas três canções já deixam perceber que a banda não pretende ficar presa a uma única fórmula. Também não parece interessada em fingir que é outra coisa. A voz rouca de Chad Kroeger continua lá, as guitarras continuam largas e os refrões continuam a pedir volume. Ainda bem. Há bandas que precisam de mudar de pele para continuarem vivas. Outras só precisam de se lembrar de tudo aquilo que sabem fazer bem.
Os Nickelback carregam uma história curiosa. Durante anos, tornou-se quase um desporto dizer mal deles. A piada foi repetida tantas vezes que muita gente já nem sabia explicar o motivo. Entretanto, músicas como How You Remind Me, Photograph ou Far Away continuaram a tocar, a ser cantadas e a encontrar pessoas novas. O tempo tem esta forma silenciosa de separar aquilo que era apenas moda daquilo que realmente ficou.
Talvez por isso eu tenha gostado tanto de descobrir uma música nova sem precisar de a comparar imediatamente com o passado. Leave Me Behind não me fez regressar aos Nickelback por nostalgia. Fez-me parar por aquilo que é agora. A banda ainda sabe construir uma canção que começa dentro de nós e acaba a pedir mais volume. E, quando terminou, fui ouvir outra vez.
Ainda faltam algumas semanas para conhecermos o álbum completo. Até lá, estas três músicas chegam perfeitamente para abrir o apetite. Não sei ainda o que estará escondido nas restantes faixas, mas sei que os Nickelback conseguiram aquilo que estas primeiras canções devem conseguir: deixaram-me curioso. Há alguma ironia nisto. A música chama-se Leave Me Behind, mas foi precisamente a que ficou comigo.
Ouvir no Spotify
Leave Me Behind
Rattle The Cage, com John 5
Bones For The Crows

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