Descobriram um novo tubarão que consegue “andar” fora de água, e eu confesso que a primeira reacção foi quase infantil. Um tubarão que anda? Parece coisa saída de um filme estranho, de uma daquelas ideias que a natureza guarda para nos lembrar que ainda sabemos muito pouco sobre o mundo onde vivemos.
Chama-se Hemiscyllium dudgeonae e foi encontrado na Papua-Nova Guiné, na região de Milne Bay. É pequeno, nocturno, discreto, e usa as barbatanas como se fossem pequenas pernas para se deslocar em águas rasas, sobre recifes e zonas pouco profundas. Não é o monstro de cinema que aprendemos a imaginar quando ouvimos a palavra tubarão. É outra coisa. Um animal quase delicado no absurdo do seu movimento, como se o mar tivesse inventado uma criatura entre o peixe, o réptil e a teimosia.
E é aqui que a notícia devia ficar bonita. Devia bastar-nos o espanto. A ideia de que ainda há espécies por descobrir, formas de vida por nomear, criaturas que passam ao lado da nossa imaginação até alguém as encontrar numa noite de investigação. Devia haver tempo para olhar, sorrir e dizer: afinal, a natureza ainda sabe surpreender.
Mas, para variar um bocadinho, a maravilha vem logo acompanhada da sombra. Mais uma espécie rara. Mais um habitat frágil. Mais um ser vivo que mal entra nos nossos jornais e já vem com o aviso preso ao corpo. A distribuição parece limitada, os recifes estão sob pressão, a pesca existe, as alterações climáticas não esperam por ninguém. E nós descobrimos o tubarão quase ao mesmo tempo que começamos a perceber que ele pode não ter muito espaço para continuar.
Há qualquer coisa de profundamente cansativo nisto. Não no animal, claro. O tubarão não tem culpa nenhuma. Ele anda como sempre andou, faz a sua vida de fundo marinho, atravessa recifes com a paciência dos bichos que não precisam de nos impressionar. O cansaço vem de nós. Da repetição. Da forma como tantas notícias sobre biodiversidade começam com encanto e acabam em ameaça.
Descobrimos uma rã nova, mas a floresta está a desaparecer. Encontramos uma ave rara, mas a ilha está a aquecer. Identificamos uma planta desconhecida, mas o solo já foi vendido. Agora é um tubarão que anda, e antes de conseguirmos brincar com a imagem, já estamos a falar de vulnerabilidade, habitat e extinção.
Talvez seja por isso que esta notícia me ficou presa. Não apenas pelo lado curioso, que é evidente, mas pelo contraste. Um animal destes devia obrigar-nos a humildade. Devia lembrar-nos que o planeta ainda tem corredores secretos, criaturas improváveis, soluções antigas para problemas que nem imaginamos. Em vez disso, lembra-nos também que somos muito bons a chegar tarde. Chegamos com nomes científicos, fotografias, artigos e espanto, mas muitas vezes chegamos quando o lugar já está ferido.
E, no entanto, ainda há beleza. Há sempre. Há beleza num tubarão que se desloca devagar sobre o fundo, como se recusasse a aceitar a imagem feroz que lhe colámos em cima. Há beleza numa espécie que existe sem pedir palco. Há beleza no facto de a ciência continuar a procurar, mergulhar, medir, observar e dar nome ao que ainda estava escondido.
Só que a beleza já não chega sozinha. Hoje, descobrir uma espécie nova é também assumir uma responsabilidade. Não basta dizer “olhem que curioso”. É preciso perguntar: e agora? O que fazemos com esta informação? Guardamo-la como mais uma curiosidade simpática para circular nas redes durante dois dias, ou percebemos que cada descoberta destas é uma pequena luz acesa num sítio que talvez estejamos a apagar?
O tubarão que aprendeu a andar não precisa de nós para ser extraordinário. Já o era antes de lhe darmos nome. A pergunta é se nós ainda vamos a tempo de ser menos desastrados com o mundo onde ele vive.
Porque o espanto, sozinho, é bonito. Mas sem cuidado, torna-se apenas uma despedida com boa fotografia.
