O ano que cabia num bolso

Um ano inteiro cabia num pequeno cartão. Alguns perderam a utilidade, mas ficaram a guardar o tempo que passou.

Houve um tempo em que o ano inteiro cabia dentro de uma carteira. Doze meses impressos num pequeno rectângulo de cartão, com os domingos marcados a vermelho e, no outro lado, a publicidade de uma loja, de uma oficina, de um café ou de qualquer comércio que quisesse permanecer connosco durante mais algum tempo.

Os calendários de bolso estavam por todo o lado. Eram oferecidos ao balcão, entregues com as compras ou guardados junto da caixa para quem quisesse levar um. Tinham uma utilidade simples: consultar um dia, confirmar uma data, contar as semanas que faltavam para alguma coisa. No final do ano, perdiam essa função e quase todos acabavam no lixo. Os meus não.

A coleção começou com os calendários repetidos do meu irmão. Foi uma daquelas coisas que aparecem sem plano, como tantas coleções começam. Primeiro vêm dois ou três, depois reparamos que existem outros diferentes e, quando damos por isso, já estamos atentos ao próximo que possa aparecer.

Comecei a guardar os de futebol, com jogadores, clubes e equipas que atravessavam as épocas. Vieram os das bandeiras, os de charutos, os de provérbios e muitos outros ligados ao comércio. Alguns tinham fotografias cuidadas, outros desenhos simples e publicidade feita sem grandes preocupações estéticas. Havia de tudo, porque cada pequeno calendário carregava o gosto e o tempo de quem o mandara imprimir.

Não valiam dinheiro, pelo menos não era isso que me interessava. O valor estava na diferença, na procura e na satisfação de encontrar um que ainda não tinha. Um calendário repetido podia servir para uma troca. Um novo abria mais um pequeno espaço dentro da coleção.

Acabei por guardá-los em micas, protegidos como se fossem documentos importantes. E, de certa maneira, eram. Não documentos oficiais, mas sinais de uma época em que a publicidade ainda se podia oferecer em cartão e permanecer durante um ano dentro de um bolso. Muitos dos estabelecimentos anunciados já fecharam, mudaram de nome ou desapareceram da memória das terras onde existiram. Os calendários ficaram.

Quando os volto a ver, raramente olho para as datas. O ano impresso deixou de servir para organizar o futuro e passou a guardar o passado. Um jogador recorda uma equipa, uma bandeira leva a outro lugar, um anúncio devolve o nome de uma casa comercial que talvez já ninguém reconheça. Até o desenho das letras e a qualidade do papel contam alguma coisa sobre o tempo em que foram feitos.

Hoje consultamos o calendário no telemóvel. Ele lembra-nos de compromissos, aniversários e tarefas, mas não deixa nada para guardar. Quando o ano termina, desaparece do ecrã e dá lugar ao seguinte, sem ocupar uma gaveta nem amarelecer nas margens.

Os calendários de bolso pertencem a outro ritmo. Pequenos objectos feitos para durar apenas doze meses que, nas mãos de quem decidiu guardá-los, acabaram por atravessar décadas.

Talvez colecionar seja também isso: salvar da passagem do tempo aquilo que o próprio tempo declarou inútil. Porque, às vezes, um ano acaba no dia 31 de Dezembro. Outras vezes, continua inteiro dentro de uma mica, à espera de que alguém volte a pegar nele.

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