O instante que o VAR apagou

Um golo que parecia simples desaparece no ecrã e o jogo muda de forma sem pedir licença

Eu não costumo falar de futebol nas quatro linhas, mas há jogos que entram no caderno mesmo sem pedir licença porque têm qualquer coisa que ultrapassa o resultado e fica ali a pesar depois do apito final

O golo nasce simples como deviam nascer todos, um passe que abre o jogo, o remate sem hesitação, a bola a entrar com essa certeza antiga de que o futebol ainda sabe decidir sozinho e na bancada ninguém procura dúvidas, só explode

Mas o jogo já não acaba ali

O VAR entra como entra o frio numa sala quente, primeiro o silêncio, depois o ecrã, depois as linhas a desenhar outra versão do mesmo instante, e há qualquer coisa estranha nesse momento em que o mundo fica suspenso à espera de uma leitura mais precisa do que aquilo que os olhos já tinham aceitado

O golo desaparece de forma seca como se nunca tivesse tido direito a existir e fica a falta, minúscula, quase irrelevante noutra altura do jogo mas agora suficiente para riscar um momento inteiro do tempo

A Alemanha volta para trás sem se mexer como quem perde um lugar dentro de si e o Paraguai fica ali entre o alívio e a estranheza de continuar vivo num lance que não chegou a ser perigo real

O jogo segue mas já não é o mesmo, há sempre um segundo jogo a acontecer por baixo deste, mais silencioso, mais lento, feito de decisões que ninguém viu em direto mas que mudam tudo na mesma

Nos penáltis tudo fica mais lento mesmo quando tudo acelera, como se o futebol tivesse perdido a pressa de chegar a qualquer conclusão

E no fim não sobra escândalo, sobra uma coisa mais difícil de largar, uma dúvida que fica a andar sozinha muito depois do apito final

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