O futuro em suspenso

Alguns alunos encontraram “suspenso” onde devia estar uma nota. Quando o sistema falha, também o futuro fica à espera.

Há palavras que pesam mais quando aparecem no lugar de um número. “Suspenso” é uma delas.

Não diz que o aluno passou. Não diz que falhou. Não diz sequer que terá de tentar novamente. Diz apenas que a resposta ainda não existe, embora o calendário continue a avançar e o futuro não tenha aprendido a esperar.

Foi essa a palavra que alguns alunos encontraram nas pautas dos exames nacionais. Depois de meses de estudo, de explicações, de noites mal dormidas e da ansiedade própria de quem sabe que algumas décimas podem decidir um curso, uma cidade ou os anos seguintes da sua vida, receberam um vazio administrativo.

Suspenso. É difícil imaginar uma palavra mais adequada para descrever aquilo que ficaram a sentir.

A escola ensina desde cedo que os prazos devem ser cumpridos. Um trabalho entregue depois da data pode perder valor. Uma resposta esquecida fica em branco. Um erro de cálculo desconta pontos. Um atraso pode ser registado. Aos alunos pede-se atenção, rigor e responsabilidade, mesmo quando ainda estão a aprender o significado dessas palavras.

E deve ser assim. Crescer também passa por perceber que as escolhas têm consequências.

O problema começa quando o próprio sistema que exige esse rigor não consegue oferecê-lo no momento em que mais importa.

A correção eletrónica dos exames deveria tornar o processo mais simples e rápido. Em vez disso, surgiram atrasos, dificuldades técnicas, provas incompletas e classificações que não chegaram a tempo. A tecnologia, apresentada tantas vezes como solução inevitável, acabou por colocar mais uma camada entre o aluno e a resposta que esperava.

Não é uma discussão contra o digital. Seria absurdo fingir que o papel nunca falha ou que devemos regressar a um tempo onde tudo era melhor apenas porque era mais lento. A tecnologia pode ajudar, facilitar e libertar pessoas de tarefas pesadas. Mas não deve ser lançada sobre momentos decisivos como quem experimenta uma máquina nova numa sala vazia.

Do outro lado estão pessoas. Há um aluno a olhar para uma pauta, uma família a tentar perceber o que fazer, inscrições, candidaturas, alojamentos e decisões presas a uma nota que ainda não apareceu. Aquilo que para o sistema é um processo por concluir, para alguém pode ser o verão inteiro parado diante de uma porta fechada.

Talvez nos tenhamos habituado demasiado a transformar pessoas em números. O número de exames corrigidos, o número de erros, o número de dias de atraso, o número de alunos afetados. Depois chegam os esclarecimentos, os comunicados e as garantias de que tudo será resolvido, Provavelmente será.

As notas acabarão por chegar, os calendários serão ajustados e as bases de dados voltarão a funcionar. Dentro de alguns meses, esta confusão será apenas mais uma notícia antiga, enterrada por problemas novos. Mas quem viveu estes dias não esquecerá tão facilmente a sensação de ter o futuro entregue a um sistema que deixou de responder.

Uma nota não define uma pessoa. Todos repetimos isso, e é verdade.

Nenhum exame consegue medir por inteiro a inteligência, a curiosidade, a capacidade de criar, a coragem ou aquilo que alguém poderá vir a ser. Há alunos brilhantes que falham provas e outros que conseguem bons resultados sem que isso lhes indique um caminho. A vida é maior do que uma pauta.

No entanto, enquanto construirmos um sistema em que essas notas abrem e fecham portas, não podemos diminuir a importância do momento. Não podemos dizer a um jovem que é apenas um número e, ao mesmo tempo, obrigá-lo a depender desse número para continuar.

É essa contradição que torna tudo mais pesado.

Pedimos aos alunos que confiem na escola. Que acreditem no estudo, no esforço e nas regras. Depois, no fim do caminho, mostramos-lhes que as regras também podem falhar e que nem sempre existe alguém preparado para assumir imediatamente o erro.

Talvez a lição mais amarga destes exames não esteja nas perguntas que apareceram nas provas. Está naquilo que aconteceu depois.

Os alunos descobriram que o mundo dos adultos também entrega trabalhos atrasados. Também se engana. Também culpa a ferramenta, o calendário ou o procedimento. A diferença é que, quando um aluno falha, recebe uma nota. Quando falha o sistema, é o aluno que fica suspenso.

Não devia ser assim, modernizar uma escola não é apenas instalar plataformas, digitalizar folhas ou substituir pilhas de papel por ficheiros. É garantir que cada mudança respeita aqueles que dependem dela. É testar antes de arriscar. É ter alternativas prontas. É compreender que, por trás de cada código, existe alguém que passou anos a preparar-se para aquele momento.

Neste caso, o erro poderá ser corrigido. O que não se recupera tão depressa é a confiança.

Porque uma escola deve ensinar mais do que matérias. Deve mostrar que o rigor exigido aos mais novos também é praticado pelos adultos. Que assumir uma falha não é procurar culpados, mas proteger quem ficou vulnerável. Que o futuro de um aluno não pode ser tratado como uma linha incompleta numa folha de cálculo.

Há palavras que pesam mais quando aparecem no lugar de um número.

“Suspenso” é uma delas. E talvez, desta vez, não tenham sido apenas as notas que ficaram suspensas. Foi também a certeza de que o sistema sabia o que estava a fazer.

1