All-4-One, a música que ficou no carro

Uma música apareceu no carro, cantámo-la juntos e decidimos que seria nossa. Hoje, quando toca, ainda me deixa meio nhecs.

Não me lembro se I Swear apareceu no Spotify ou na rádio. Lembro-me apenas de estarmos no carro, de a música começar e de ela acompanhar quase imediatamente as primeiras palavras.

Depois entrei eu, a tentar cantar também, com mais vontade do que afinação.

Durante alguns minutos, aquele carro tornou-se um lugar diferente. Já não era apenas uma viagem, nem uma música conhecida a tocar ao acaso. Éramos os dois a cantar uma canção que falava de promessas, de presença e daquela ideia de permanecer ao lado de alguém acontecesse o que acontecesse.

Vieram-me lágrimas aos olhos. Não por tristeza, mas pela força do momento, pela voz dela, pela música e por tudo aquilo que, naquela altura, parecia caber dentro daquelas palavras. Foi então que decidimos que I Swear seria a nossa música.

Há canções que escolhemos depois de muito pensar. Procuramos uma letra que combine connosco, uma melodia que represente a relação ou uma memória já construída. Esta não. Apareceu sem aviso e escolheu-nos naquele instante.

Os All-4-One pertencem a uma época em que as grandes baladas ainda tinham tempo para crescer. As vozes entravam umas nas outras, as harmonias carregavam a canção e as palavras eram ditas sem medo de parecer demasiado sentimentais. Havia promessas enormes, amores que juravam durar para sempre e refrões feitos para serem cantados por quem acreditava neles.

Talvez hoje se olhe para essas músicas com alguma distância ou até com ironia. Eu não consigo. I Swear ficou presa àquele carro, às nossas duas vozes e ao momento em que combinámos que seria a música da relação.

A vida acabou por seguir por outro caminho. As promessas cantadas não se cumpriram como imaginávamos e aquilo que parecia permanente encontrou o seu fim. Mas a música não recebeu o aviso.

Continua a aparecer de vez em quando, no meio de uma lista, numa estação de rádio ou naquele algoritmo que parece saber exactamente onde estão as memórias que tentamos manter sossegadas. E basta o início para eu regressar àquele carro.

Não fico propriamente triste. Fico meio nhecs.

É uma mistura estranha de ternura, saudade e reconhecimento. Não queria voltar atrás, nem transformar o passado numa coisa que ele já não é. Mas também não consigo ouvir a música como se fosse apenas mais uma balada dos anos 90. Há demasiado de nós guardado nela.

Talvez esse seja o preço de escolhermos uma música para uma relação. Quando tudo corre bem, ela torna-se um lugar onde regressamos juntos. Quando termina, fica sem saber a quem pertence. Continua a tocar, mas agora carrega duas versões da mesma história: aquela que vivemos e aquela que imaginámos viver.

Apesar disso, não lhe guardo rancor. A música não prometeu nada. Fomos nós que colocámos nela as nossas promessas. Os All-4-One apenas cantavam; nós é que acreditávamos que aquelas palavras podiam servir de mapa.

E, durante algum tempo, serviram.

Quando hoje ouço I Swear, ainda vejo o interior do carro, ainda escuto a voz dela a começar e a minha a juntar-se depois, com mais vontade do que afinação. Lembro-me das lágrimas nos olhos e da certeza com que decidimos que aquela seria a nossa música.

Já não é a música de uma relação. É a música de um momento.

E talvez seja por isso que ainda me deixa meio nhecs: porque algumas promessas terminam, mas a canção onde as guardámos continua a saber exactamente onde nos encontrar.

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