A Serenity ainda voa dentro de nós

Cheguei tarde a Firefly, mas bastou uma temporada e um filme para perceber por que razão tanta gente nunca saiu verdadeiramente daquela nave.

Há séries que chegam tarde à nossa vida e, ainda assim, parecem ter estado sempre à espera de nós. Foi assim com Firefly. Apareceu-me agora no Disney+, quase sem aviso, e bastaram poucos episódios para perceber que aquela nave velha, remendada e barulhenta tinha muito mais vida dentro dela do que muitas histórias com universos bem maiores.

À primeira vista, Firefly parece uma mistura improvável. Há cowboys, armas antigas, planetas poeirentos, tecnologia, comércio clandestino e uma nave a atravessar o espaço como quem atravessa uma estrada sem mapa. Mas depressa percebemos que o cenário é apenas a superfície. O que realmente segura a série é a tripulação da Serenity.

Mal, Zoe, Wash, Kaylee, Jayne, Inara, Simon, River e Book não formam uma equipa perfeita. Discutem, escondem coisas, desconfiam uns dos outros e carregam feridas que nem sempre conseguem explicar. Talvez seja precisamente por isso que funcionam tão bem juntos. Não parecem personagens arrumadas para caber numa história. Parecem pessoas que, por acaso ou necessidade, acabaram na mesma nave e foram aprendendo a chamar casa àquele pedaço de metal.

O universo de Firefly também não tem o brilho limpo de muita ficção científica. Há pó, ferrugem, fome, negócios duvidosos e gente esquecida pelos centros de poder. A Aliança promete ordem, mas essa ordem tem um preço, e Mal sabe-o melhor do que ninguém. A Serenity acaba por representar o contrário disso. É pequena, vulnerável e vive quase sempre no limite, mas continua livre.

Talvez tenha sido essa liberdade que mais me prendeu. A sensação de que cada episódio podia levar a tripulação a qualquer lugar, mas que o verdadeiro caminho acontecia dentro da própria nave. Aos poucos, começamos a conhecer os silêncios de River, a alegria quase luminosa de Kaylee, a lealdade de Zoe, o humor de Wash e aquela dureza de Mal, que tantas vezes serve apenas para esconder aquilo que ainda lhe dói.

Depois veio Serenity, o filme que tentou fechar uma porta deixada aberta cedo demais. A história ganha outra urgência, River deixa finalmente de ser apenas um mistério e Miranda mostra até onde pode ir um poder convencido de que sabe o que é melhor para todos. O filme responde a perguntas, mas também deixa marcas. Algumas perdas custam porque, nessa altura, aquela tripulação já não era apenas um grupo de personagens. Era uma família.

E talvez seja esse o maior feito de Firefly. Durou pouco, teve apenas uma temporada e um filme, mas deixou a sensação de termos vivido muito tempo dentro daquela nave. Há séries com várias temporadas que desaparecem assim que terminam. Esta não. A Serenity continua a voar na memória, com os motores cansados, os corredores apertados e aquela gente teimosa que só queria encontrar mais um trabalho, mais um planeta e mais um dia de liberdade.

Cheguei tarde a Firefly, mas ainda fui a tempo de embarcar. E quando a viagem acabou, percebi por que razão tanta gente nunca conseguiu verdadeiramente sair daquela nave.

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