A praça que Milfontes não precisa

Em Milfontes monta-se uma praça por uma noite. Depois desaparece. O sofrimento, esse, não se desmonta.

Vai realizar-se, amanhã em Vila Nova de Milfontes uma corrida de toiros. E custa-me ver a vila onde vivo há quarenta anos servir de cenário a um espetáculo que abomino.

Haverá quem fale de tradição, como acontece sempre que se questiona uma tourada. A palavra aparece quase automaticamente, como se bastasse pronunciá-la para encerrar qualquer discussão. Mas esta corrida nem sequer pode esconder-se atrás de uma tradição local. Milfontes não tem uma praça de toiros histórica, não cresceu à volta da arena e não guarda este espetáculo como parte da sua identidade.

A praça é desmontável. Chega, instala-se num terreno durante alguns dias, recebe o público e desaparece depois da corrida. Ficam novamente o chão, os carros e o verão. Quase parece que nada aconteceu.

Mas aconteceu. Um animal foi levado para uma arena, provocado, ferido e transformado em entretenimento. Houve aplausos, música e festa à volta do medo de um ser vivo que nunca escolheu estar ali. Podem mudar as palavras, falar de arte, bravura ou cultura, mas o animal continua no centro de tudo, condenado a sofrer para que alguém passe uma noite diferente.

Também me incomoda a forma como esta corrida parece misturar-se com a vida prática da vila. O terreno onde a praça é montada é usado, durante a época alta, como parque automóvel. Houve um ano em que a Junta não permitiu a instalação da arena e, nesse mesmo verão, o terreno ficou fechado aos carros. Não conheço os acordos, as conversas ou as razões formais que possam ter existido, por isso não afirmo aquilo que não posso provar. Mas recordo o que aconteceu e a sensação que deixou.

Ficou a impressão de que uma necessidade de Milfontes podia depender da aceitação de um espetáculo privado. Como se o estacionamento e a tourada fossem duas faces da mesma moeda. Como se a vila tivesse de escolher entre aquilo de que precisa no verão e aquilo que alguém quer trazer para cá. É triste.

O terreno é privado, naturalmente, e o proprietário poderá decidir o que faz com ele. Mas quando esse espaço ajuda a responder a um problema público, num lugar que recebe milhares de visitantes durante os meses de verão, ganha um peso que ultrapassa a simples propriedade. E quando esse peso parece cruzar-se com interesses pessoais, a situação torna-se desconfortável.

Os defensores das touradas dirão que é cultura. Outros dirão que o touro nasceu para aquilo, como se nascer sob domínio de alguém retirasse a um animal a capacidade de sentir dor. Alguns falarão do respeito que existe na arena. Tenho dificuldade em reconhecer respeito num espetáculo que precisa de ferir para existir.

Uma vez respondi que, se tudo o que foi tradição merecesse continuar, também podíamos recuperar os combates de gladiadores da Roma antiga. Enchiam arenas, tinham rituais, público e importância social. Também eram tradição. Caíram porque o mundo mudou e porque a sociedade acabou por compreender que nem tudo o que vem do passado merece ser levado para o futuro.

É isso que falta aceitar em relação às touradas. Questionar uma tradição não é apagar a história. É reconhecer que a história também serve para percebermos aquilo que já não queremos repetir. As sociedades avançam quando deixam de proteger práticas apenas por serem antigas, populares ou lucrativas.

Milfontes tem identidade suficiente sem precisar de uma arena desmontável. Tem o rio a encontrar o mar, as praias, as ruas, os pescadores, os comerciantes, as famílias que cá vivem e as pessoas que regressam todos os anos. Tem memórias verdadeiras, criadas ao longo de gerações, e não precisa de importar sofrimento para provar que sabe fazer uma festa.

A praça será desmontada depois da corrida. Os ferros sairão, as bancadas desaparecerão e o terreno voltará a parecer apenas um terreno.

Mas o sofrimento não se desmonta. E a ideia de que certas vontades podem pesar mais do que aquilo que a vila é também não desaparece quando o último camião segue viagem.

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