A liberdade quando o mundo arde devagar

Quando os mapas voltam a ser tratados como propriedade dos mais fortes, a liberdade dos povos começa a arder devagar.

Falamos muitas vezes de liberdade como se fosse uma palavra escrita numa Constituição, uma ideia ampla que pertence aos discursos, às cerimónias e às grandes datas da História. Mas, para quem vive num país invadido, num território ocupado ou debaixo de fogo, a liberdade pode ser uma coisa muito mais simples: dormir na própria cama, atravessar uma rua, dizer que discorda, escolher quem governa ou acreditar que a casa continuará de pé quando chegar a manhã.

Há períodos em que a liberdade parece uma estrutura sólida, quase arquitectónica. Um edifício que se visita, que se reconhece e que se acredita capaz de resistir ao tempo. Depois chegam épocas como esta, em que começa a perder consistência. Não desaba de uma vez, nem desaparece perante uma multidão reunida numa praça. Vai-se tornando fumo, dissolvendo-se devagar, enquanto o ar à nossa volta fica mais pesado e nós nos habituamos a respirar pior.

O mundo vive um desses momentos. Não há apenas um grande incêndio, mas vários fogos espalhados, cada um com a sua origem, a sua história e os seus responsáveis. Há países invadidos, territórios ocupados, povos cercados, fronteiras transformadas em ameaças e governantes que voltaram a falar do mapa como quem fala de uma propriedade. Mudam os lugares e as bandeiras, mas repete-se a mesma pergunta: quanto vale a liberdade de um povo quando uma força maior decide que os seus interesses são mais importantes?

Na Ucrânia, a liberdade é o direito de um país continuar a existir dentro das suas fronteiras e de escolher o caminho que pretende seguir. Mas é também a liberdade muito concreta de permanecer na própria terra, conservar a casa, falar a sua língua e não acordar sujeito às leis de uma potência ocupante. Para milhões de ucranianos, a soberania deixou de ser uma palavra distante. Passou a caber numa mala preparada à pressa, numa estação cheia, numa janela tapada para esconder a luz ou no silêncio que antecede mais um alarme.

Também dentro da Rússia existe uma liberdade que encolheu. A de discordar da guerra, recusar a narrativa oficial ou dizer que nenhum país se torna maior quando obriga os seus cidadãos a calarem-se. O poder que atravessa uma fronteira para retirar liberdade a outro povo raramente deixa intacta a liberdade dentro da sua própria casa. Antes de mandar soldados para fora, começa por exigir silêncio a quem ficou.

Na Palestina, a liberdade mede-se muitas vezes em quilómetros que não podem ser percorridos, portas que não se abrem e casas onde já não é possível regressar. É chegar a um hospital, encontrar água, receber alimentos, atravessar um posto de controlo ou permanecer no lugar onde viveram os pais e os avós. Quando a sobrevivência quotidiana depende de autorizações, corredores, bloqueios e tréguas frágeis, a palavra liberdade deixa de ser uma ideia política. Torna-se uma necessidade física.

Os israelitas também têm o direito de viver sem ataques, sem o medo de serem mortos ou levados como reféns. Reconhecer esse direito, porém, não pode servir para apagar o sofrimento palestiniano, justificar o castigo colectivo ou transformar milhões de civis em responsáveis pelos crimes de um grupo armado. Defender a liberdade de um povo não exige negar a liberdade do outro. Quando isso acontece, já não estamos a falar de segurança, mas de uma hierarquia de vidas em que umas parecem valer mais do que outras.

É talvez essa a doença mais antiga do poder: acreditar que a liberdade pode ser distribuída conforme a força, a origem ou a utilidade de cada povo. Uns merecem decidir o seu destino, outros devem aceitar aquilo que lhes for imposto. Uns têm direito a fronteiras, outros são tratados como obstáculos dentro delas. Uns podem invocar a História, enquanto aos restantes é pedido que esqueçam a sua.

Essa linguagem voltou a instalar-se sem grande cerimónia. Um presidente fala da Gronelândia como se um território pudesse ser adquirido por conveniência estratégica. Olha para a Venezuela como uma área a dirigir e para os seus recursos como peças numa disputa entre potências. Pressiona Cuba, fala em controlar uma passagem internacional como o estreito de Ormuz e procura no estrangeiro os culpados convenientes para derrotas que aconteceram dentro do seu próprio país. Cada declaração parece apenas mais uma provocação, até ao momento em que a provocação começa a transformar-se em política.

O problema não é apenas Donald Trump, embora ele tenha dado a esta velha ambição uma voz particularmente ruidosa. O problema é o regresso da ideia de que o mundo pertence a quem possui força suficiente para o dividir, comprar, bloquear ou administrar. Trump não inventou essa forma de poder. Apenas deixou de sentir necessidade de a esconder atrás de palavras cuidadosas.

Também nas Malvinas, ou Falkland, a disputa costuma ser contada como uma questão entre a Argentina e o Reino Unido. Mas vivem pessoas naquelas ilhas. Pessoas que foram chamadas a pronunciar-se e escolheram, de forma esmagadora, manter a ligação britânica. Podemos discutir a História, a guerra, o colonialismo e a legitimidade das reivindicações, mas não podemos falar de autodeterminação enquanto tratamos a vontade de quem ali vive como um incómodo que atrapalha a nossa versão do mapa.

É aqui que a liberdade começa a arder devagar. Não apenas quando um exército atravessa uma fronteira, quando uma bomba destrói uma rua ou quando um governo proíbe uma manifestação. Começa também quando deixamos de perguntar às pessoas o que querem para o lugar onde vivem. Quando os povos se tornam números, recursos, corredores estratégicos ou argumentos eleitorais. Quando a sua vontade vale menos do que o petróleo debaixo da terra, a posição de uma ilha ou a passagem dos navios.

O mais inquietante é que esta erosão não acontece apenas nas grandes decisões. Entra na vida quotidiana através do receio de falar, da vontade de evitar conflitos e da tentação de trocar a complexidade por respostas simples. A liberdade exige atenção, pensamento e confronto de ideias. Tudo isso cansa. Quando o futuro deixa de ser uma promessa e passa a ser uma interrogação, torna-se fácil aceitar versões reduzidas da liberdade, desde que nos garantam alguma sensação de ordem.

É assim que a violência se transforma em linguagem, a desconfiança se torna hábito e a vigilância se instala como rotina. Cada concessão parece pequena e até razoável quando observada isoladamente. Juntas, porém, redesenham os limites do que podemos dizer, escolher e imaginar. A liberdade deixa de ser um espaço aberto e passa a ser um conjunto de permissões concedidas por alguém.

Talvez por isso o perigo maior não esteja no colapso, mas na indiferença. No momento em que deixamos de estranhar aquilo que devia inquietar-nos. Primeiro ouvimos que um país pretende ficar com um território e rimos do absurdo. Depois discutimos se seria possível. Por fim, começamos a falar do preço, das vantagens e das condições, esquecendo que há pessoas a viver do outro lado do mapa.

A liberdade não está a pedir salvadores nem discursos inflamados. Está a pedir atenção. Uma atenção simples, quase doméstica, capaz de reparar no que muda devagar. Está a pedir pessoas que continuem a pensar quando tudo à volta exige reflexos, que façam perguntas quando o silêncio parece mais confortável e que não aceitem o medo como arquitecto do futuro.

Porque a liberdade não se mede apenas pelo tamanho das leis ou pelas palavras gravadas nas Constituições. Mede-se pelo espaço que deixamos para os outros existirem, mesmo quando vivem longe, falam outra língua ou escolheriam um caminho diferente do nosso. Mede-se pela capacidade de reconhecermos que nenhum povo deve ser propriedade de outro e que nenhuma fronteira dá a quem está de um lado o direito de apagar quem vive do outro.

Enquanto ainda formos capazes de estranhar o fumo, a liberdade respira. E enquanto respirar, o mundo ainda não está condenado a arder.

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