Há dias em que a terra decide falar em mais do que um lugar ao mesmo tempo.
Nos últimos dias, a Venezuela apareceu nas notícias por dois terramotos. Dois abalos num mesmo país, como se o chão insistisse em lembrar que nada ali está totalmente quieto. Lemos isso à distância, entre outras coisas, mas a palavra “terramoto” nunca fica só no ecrã.
Há qualquer coisa nela que atravessa fronteiras sem passaporte.
Porque um terramoto, mesmo longe, tem sempre uma forma estranha de nos chegar. Não é só o acontecimento. É a imagem invisível do chão a perder firmeza, casas a hesitar, ruas a desaprender o seu desenho por segundos.
E depois há isto, que raramente dizemos em voz alta: também nós estamos sobre falhas. Também aqui o chão já sabe o que é mexer. Não é uma hipótese distante, é apenas uma calma provisória.
Talvez seja isso que torna estas notícias diferentes. Não são só acontecimentos “noutro lado”. São lembretes discretos de que o planeta não tem zonas totalmente seguras, só intervalos maiores ou menores entre movimentos.
Mas continuamos a dizer “lá longe”, como se isso afastasse o significado.
E depois passa. As notícias mudam. O mundo segue.
Fica só um resto de atenção no corpo, como se ele tivesse ouvido melhor do que nós.
