Arroz Doce de Casa

O arroz doce é uma daquelas sobremesas que parecem vir de muito antes de nós. Está ali, na mesa, no tacho, no cheiro que atravessa a cozinha, e de repente já não é só comida. É casa. É memória. É aquele sabor que nos acompanha desde que nos lembramos de ser gente.

Em nossa casa, o arroz doce faz-se desde sempre e continua a ser uma das minhas sobremesas preferidas. A receita não leva ovos, como acontece em muitas versões, mas tem um segredo simples que lhe dá alma: pudim Manderin. É ele que lhe traz aquela cor amarelinha, bonita, e uma cremosidade macia, quase aveludada, daquelas que ficam na colher e depois ficam na lembrança.

Não é uma sobremesa complicada, nem precisa de ser. Talvez seja precisamente por isso que gosto tanto dela. Tem o sabor das coisas feitas com calma, das tardes sem pressa, das conversas à mesa, das taças alinhadas à espera de arrefecer, da canela por cima e daquele primeiro momento em que se prova ainda com a memória quente.

Para mim, o arroz doce não é apenas uma sobremesa. É uma pequena tradição cá de casa, dessas que se repetem sem grande cerimónia, mas que acabam por guardar mais do que imaginamos. Cada colherada traz um bocadinho de infância, um bocadinho de família, um bocadinho desse tempo que passa, mas que às vezes conseguimos segurar num sabor.

E talvez seja isso o melhor da comida feita em casa: não alimenta só o corpo. Alimenta aquilo que somos, aquilo que fomos e aquilo que, de alguma forma, ainda queremos guardar.

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