Antes do ranking

Há bandas que ouvimos. E depois há outras que mudam o lugar onde a música vive dentro de nós.

Há músicas que entram na vida como quem passa por uma estrada e acena. Gostamos, ouvimos, seguimos em frente. E depois há outras que não passam. Ficam. Não como lembrança organizada, mas como um espaço que se instala dentro da forma como ouvimos tudo o resto.

Os Queen são desse tipo de presença que parece não caber em nada pequeno. Há neles uma energia quase teatral, como se cada canção tivesse sido pensada para um palco maior do que o mundo onde foi gravada. Não é apenas rock, nem apenas pop, nem apenas técnica. É intensidade levada ao limite com uma confiança absoluta de que a emoção pode ser grande sem pedir desculpa. Freddie Mercury empurra a voz até parecer que ela ganha corpo próprio, como se respirasse por si. À volta disso há guitarras que não acompanham, anunciam, baterias que não marcam apenas tempo, marcam impacto. Tudo neles é presença.

Os Pink Floyd vivem noutro tipo de espaço. Não entram a preencher, entram a abrir. A música deles não se oferece de imediato, vai-se revelando como uma paisagem vista ao longe que demora a ganhar forma. Há ali um trabalho quase invisível com o silêncio, como se o silêncio também fosse instrumento. As canções não têm pressa de chegar a lugar nenhum. Em vez de puxarem quem ouve para dentro de um momento, deixam que o momento se expanda à volta de quem ouve. Não exigem atenção, transformam a atenção em algo mais lento, mais profundo, quase suspenso.

Entre estes dois nomes não há escolha nem comparação, é outra coisa, talvez referência, e depois disso começa tudo o resto.

Porque antes de qualquer lista, antes de qualquer ranking de preferências, há bandas que não entram em classificação. Ficam fora, não por estarem acima, mas por estarem noutro lugar. São pontos fixos, ícones no sentido mais simples da palavra. Não se escolhem, reconhecem-se.

Os Queen e os Pink Floyd pertencem a esse espaço. Não são uma opção entre outras, são parte do que define o que faz sentido quando se começa a ouvir música com atenção.

E só depois disso, quando esse chão já está posto, é que começa o resto da lista. E talvez seja isso o mais simples de dizer. Há bandas que gostamos e há duas ou três que ficam antes de qualquer gosto. E essas não entram no ranking, porque são elas que fazem o ranking começar a existir.

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