Bryan Adams, uma noite que ficou nos discos

A 31 de janeiro de 2005, Bryan Adams subiu ao palco do Pavilhão Atlântico. Os discos ficaram; aquela noite também.

A 31 de janeiro de 2005, quando o recinto ainda se chamava Pavilhão Atlântico, vi Bryan Adams ao vivo. Há lugares que mudam de nome com os anos, mas certas memórias ficam presas ao nome que tinham quando aconteceram. Para mim, aquela noite será sempre no Pavilhão Atlântico, não na MEO Arena nem na Altice Arena.

Não me lembro de cada música pela ordem em que foi tocada, nem de todos os momentos do concerto. Passaram mais de vinte anos e a memória também escolhe aquilo que guarda. Ficou a dimensão da sala, o público reunido em redor das mesmas canções e aquela sensação diferente de ouvir ao vivo uma voz que até então chegava através de discos, rádio e televisão.

Bryan Adams sempre teve essa capacidade de tornar uma canção imediatamente reconhecível. Há uma guitarra, uma voz áspera e uma forma directa de cantar que não precisa de grandes ornamentos. As músicas entram com facilidade, mas muitas ficam durante anos. Algumas acompanham viagens, outras relações, outras apenas um tempo da nossa vida que regressa assim que ouvimos os primeiros acordes.

Naquela noite, as canções deixaram de pertencer apenas aos discos. Ganharam corpo, luz, ruído e milhares de vozes a cantarem ao mesmo tempo. Um concerto faz isso: devolve-nos músicas que já conhecíamos, mas muda-lhes o lugar dentro da memória. Depois de as ouvirmos num palco, nunca voltam a ser exactamente as mesmas.

Mais tarde, ou talvez como continuação natural desse gosto, fui reunindo a coleção de Bryan Adams publicada pela Planeta Agostini. Os discos ficaram alinhados, formando uma espécie de percurso pela obra dele. Havia qualquer coisa de especial nessas coleções que chegavam regularmente às bancas. Não comprávamos apenas um álbum. Íamos construindo uma discografia aos poucos, esperando pelo número seguinte e completando uma prateleira.

Hoje, quando olho para essa coleção, não vejo apenas capas e canções. Vejo também o Pavilhão Atlântico naquela noite de janeiro. Os discos acabaram por guardar aquilo que o bilhete, sozinho, talvez já não conseguisse contar. Cada álbum abre uma porta para um tempo em que ainda se esperava por uma nova edição nas bancas, se colocava um CD no leitor e se ouvia música sem saltar imediatamente para outra coisa.

Bryan Adams atravessou décadas sem precisar de se tornar irreconhecível para continuar a existir. A música mudou, os formatos desapareceram, os recintos trocaram de nome e a forma como ouvimos canções tornou-se quase instantânea. Mas aquela voz continua a trazer consigo o mesmo reconhecimento, como alguém que não víamos há muito e que identificamos antes mesmo de olhar de frente.

Talvez seja isso que separa os artistas que apenas ouvimos daqueles que ficam ligados à nossa história. Não é apenas a qualidade das músicas, nem o número de discos guardados. É o lugar onde estávamos quando elas tocaram, as pessoas que éramos e aquilo que ainda regressa quando voltamos a ouvi-las.

A coleção da Planeta Agostini guarda a obra. A memória guarda o concerto.

E, algures entre as duas, permanece a noite de 31 de janeiro de 2005, quando Bryan Adams subiu ao palco de um lugar que, para mim, continuará sempre a chamar-se Pavilhão Atlântico.

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