Quando a Mongólia entrou pela música

Os The Hu fazem da Mongólia som: vozes profundas, cavalos, memória e metal. Uma língua que não preciso de entender para sentir.

Por estes dias, Porto Covo e Sines preparam-se para receber mais uma edição do Festival Músicas do Mundo. Durante alguns dias, esta costa onde vivemos abre-se a vozes, instrumentos e sonoridades vindas de lugares que muitos de nós talvez nunca venhamos a conhecer. O mundo aproxima-se sem precisar de passaporte e, às vezes, basta uma música para nos levar muito mais longe do que qualquer avião.

Foi nisso que pensei quando me lembrei dos The Hu, uma banda mongol que descobri através de “This Is Mongol”, na versão cantada inteiramente na sua língua. Não percebia uma única palavra, mas isso teve pouca importância, porque tudo aquilo que precisava de compreender já estava no som.

Estava nas vozes profundas, naquele canto que parece nascer muito abaixo da garganta, no peso dos instrumentos e no ritmo que nos faz imaginar uma cavalgada por uma paisagem sem fim. Antes de saber alguma coisa sobre a banda, eu já sentia a Mongólia dentro daquela música.

Não a Mongólia dos mapas ou das páginas de uma enciclopédia, mas uma terra feita de vento, distância, cavalos, dureza e memória. Uma terra onde o horizonte parece não acabar e onde a história não está guardada apenas nos livros, porque continua viva na voz, nos gestos e na forma como um povo se reconhece a si próprio.

Foi isso que me prendeu aos The Hu. O heavy metal está lá, naturalmente, com a força das guitarras, da bateria e de um som que não pede licença para entrar, mas a tradição mongol não surge colocada por cima apenas para tornar a banda diferente. Não é um ornamento nem uma curiosidade destinada a chamar a atenção de quem está do outro lado do mundo. A Mongólia é o centro da música.

Está no canto gutural, nos instrumentos tradicionais, no modo como as canções avançam e naquela força quase ancestral que atravessa tudo. Os The Hu chamam ao seu estilo Hunnu Rock, mas os nomes interessam menos do que aquilo que se sente quando começam a tocar. Parece que algo muito antigo encontrou uma forma de continuar a caminhar no presente.

Talvez seja essa uma das razões por que gosto tanto deles. Não esconderam a origem para chegar a mais pessoas, não suavizaram a língua, não apagaram os instrumentos nem transformaram a sua cultura numa versão mais fácil de consumir. Levaram tudo consigo e deixaram que o mundo os ouvisse assim.

Há músicas que procuramos compreender através da letra. Queremos saber o que dizem, acompanhar cada frase e descobrir o significado de cada verso. Com os The Hu aconteceu-me o contrário. Primeiro veio a sensação e a tradução, quando chegou, já vinha depois de a música ter feito o seu trabalho.

Há sons que percebemos com o corpo. Sentimos o ritmo no peito, a voz no fundo do estômago e a paisagem a formar-se diante dos olhos, mesmo estando sentados dentro de casa. Não conhecemos aquela terra, mas por alguns minutos parece que o vento dela nos atravessa.

É estranho pensar que uma banda consegue carregar consigo tanto de um país. Contudo, quando ouço os The Hu, não escuto apenas músicos mongóis a tocar heavy metal. Escuto uma história que continua a ser contada, uma vivência que resistiu ao tempo e um povo que encontrou uma nova forma de fazer a sua voz chegar mais longe.

Não é uma recriação de museu nem o passado fechado numa vitrina. É uma cultura viva, capaz de entrar no presente sem deixar à porta aquilo que a tornou única. Talvez o Festival Músicas do Mundo exista também para nos lembrar disso, que a música não precisa de nascer perto para nos tocar, nem de usar palavras que compreendemos para nos dizer alguma coisa.

Os The Hu fizeram isso comigo. Ouvi primeiro a força, depois a terra e só muito mais tarde pensei nas palavras. Quando dei por mim, a Mongólia já tinha entrado pela música dentro, trazendo a sua história, a sua paisagem e aquela sensação de espaço infinito onde ainda se consegue ouvir o som dos cavalos.

As palavras eram apenas acessório, porque a Mongólia já estava toda lá.

Ouvir no Spotify: The Hu, “This Is Mongol”

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