Há qualquer coisa bonita em descobrir que uma história gigantesca começou sem se fazer anunciar.
Hoje, um Campeonato do Mundo parece uma máquina imensa. Há estádios cheios, transmissões para todo o planeta, câmaras em todo o lado, estatísticas, patrocinadores, camisolas, hinos, lágrimas, discussões e gente como eu, que durante o ano quase não liga nenhuma ao futebol, mas que nestas alturas acaba sempre por espreitar o que anda a acontecer.
Depois vamos puxar pelo fio e descobrimos que o primeiro golo da história dos Mundiais nasceu de uma forma muito mais simples.
Chamava-se Lucien Laurent. Francês. Baixo, com pouco mais de metro e meio, conhecido como “Pequeno Lulu”. A 13 de julho de 1930, no Uruguai, num França contra México, recebeu um cruzamento e rematou de vólei. A bola entrou. Era o primeiro golo de sempre numa fase final de um Campeonato do Mundo.
Gosto desta imagem porque ela parece pequena demais para o tamanho que ganhou depois.
Um jogador que muitos já esqueceram. Um remate. Uma bola na baliza. Um estádio sem a dimensão quase religiosa que damos hoje aos Mundiais. E, no entanto, foi ali que tudo começou.
O mais curioso é que o próprio Lucien Laurent não tratou aquele momento como uma entrada triunfal na história. Anos mais tarde, disse que não tinha sido nada de especial. Talvez tenha razão, visto do lado dele. Para quem estava dentro do campo, era apenas futebol. Um jogo, uma jogada, um golo. A história, às vezes, só aparece depois, quando alguém olha para trás e percebe que aquele instante abriu uma porta.
Também gosto de imaginar a selecção francesa a viajar até ao Uruguai de barco, durante duas semanas, treinando no convés, entre o vento, o mar e a instabilidade da viagem. Há nisso uma distância enorme para o futebol de hoje. Agora tudo parece preparado ao milímetro. Naquele tempo, havia mais improviso, mais travessia, mais mundo pelo meio.
A vida de Lucien Laurent ainda atravessou tempos bem mais duros do que um campo de futebol. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi capturado pelos nazis e passou três anos como prisioneiro de guerra. Sobreviveu. Continuou. E ainda viveu o suficiente para ver a França campeã do mundo em 1998.
Nesse ano, estava nas bancadas do Stade de France. O último sobrevivente da equipa francesa de 1930 viu o seu país levantar o troféu. Quase sete décadas depois daquele vólei no Uruguai, o “Pequeno Lulu” estava ali, a assistir ao tamanho que a história tinha ganho.
É isto que me prende neste tipo de histórias do Mundial. Não é a táctica, nem a tabela, nem a conversa interminável sobre quem devia ter passado a bola. É encontrar estas pequenas faíscas escondidas no meio do barulho.
Um homem marcou um golo e seguiu a vida. O mundo é que decidiu, mais tarde, guardar esse remate como começo.
Às vezes, a história começa assim: sem pose, sem glória imediata, sem ninguém a perceber bem o que acabou de acontecer. Apenas uma bola cruzada, um vólei simples e um jogador pequeno a abrir a porta de uma coisa enorme.
